Nessas andanças por várias religiões, tenho visitado diversos terreiros de Umbanda de amigos antigos e novos que ganhei pelos caminhos que percorri.

Nessas pesquisas, observo uma religião diferente da que frequentei e lembrava de muito pequena. Sempre digo nas aulas na faculdade, que tive uma infância muito plural e quando criança, frequentei de tudo um pouco e tudo ao mesmo tempo (Mesa Branca, Kardecismo, Umbanda, Catolicismo e Seicho-No-Ie). Algumas pessoas, quando me ouvem relatar tal fato, condenam por eu ter tido tantas experiências, mas acredito que até nisso houve um propósito maior. Penso que talvez, se não fosse por tais contatos, não teria a facilidade de transitar pelas religiões, pesquisá-las, estudá-las e mais ainda, falar delas para quem não as conhece.

Sou professora de sociologia e antropologia da religião, pesquisadora e apaixonada pelo que faço. Tem sido um delicioso desafio estudar as religiões, não apenas nos livros, mas principalmente de maneira empírica, a partir de uma perspectiva própria, sem filtros ou julgamentos alheios. Em aula, pouco falo da minha própria espiritualidade, até porque esse não é o objetivo e nem o conteúdo programado, mas utilizo como exemplo muito daquilo que observo e experimento. Contudo, nessas peregrinações, tenho tido meus encontros com a espiritualidade e percebido muitas semelhanças nas expressões religiosas. Hoje, e particularmente hoje, vejo que Deus tem sido apreendido pelas pessoas de maneira única e particular, como se fosse um grande guarda-chuva. Noto também que cada religião tem uma concepção do todo e que se somada a outra, poderia ampliar nosso olhar e percepção sobre o Criador.

Mas voltando a Umbanda, observo uma religião mais organizada, revigorada e formatada de maneira que se torne mais fácil de ser compreendida pelos leigos. Ha também um esforço maior de aproximar suas práticas doutrinárias daqueles que antes a incompreendiam. Além disso, frequentemente, encontro dirigentes mais preparados intelectualmente, preocupados e comprometidos com a evolução espiritual e o equilíbrio emocional de seus filhos de fé. É sempre muito positivo o esclarecimento e a difusão do conhecimento, pois aquele que conhece, sabe fazer por si próprio e consequentemente não se torna presa fácil para as mães de poste e enganadores de plantão. Seja qual for a forma de obter informação dentro da Umbanda (livros, cursos presenciais ou online, workshops, palestras, etc) creio que tudo pode trazer luz no caminhar individual do adepto desta religião.

Sim, nesses 30 anos a Umbanda mudou (da minha infância até os dias de hoje), ao menos uma parte dela, e tenho notado sacerdotes mais envolvidos no ensino de seus médiuns e médiuns mais interessados em “conhecer” para se tornarem instrumentos melhores na prática religiosa. Nova roupagem sim, mais ainda com velhos problemas. “Vinho novo em odres velhos” como no Evangelho de Mateus (capitulo 9, versículo 17). Problemas que talvez não sejam exclusivos da Umbanda, mas que tem me chamado mais atenção nos terreiros visitados.

A vaidade, por exemplo, pode ser o maior desafio atual do umbandista na prática da caridade. Uma religião que propõe aprender com os espíritos mais evoluídos, ensinar os menos evoluídos e a nenhum renegar, segundo as palavras do Caboclo das 7 Encruzilhadas, deve transcender certas questões. Quem usa a guia mais colorida, o filá mais dourado, a saia mais rendada ou tem mais graus de magia que o outro não consegue perceber o necessitado que está a sua frente? Enfim, nota-se novos médiuns, mas ainda velhos problemas.

Se me lembro, essas questões já eram presentes na Umbanda da minha infância e noto que ainda não foram superadas na atualidade pois ouço frequentemente dirigentes falando sobre os problemas de ego, vaidade e excessos cometidos pelos médiuns em suas casas.

Ao contrário do que alguns podem pensar, esse não é um problema exclusivo da Umbanda e o mesmo ocorre em outras instituições religiosas, salvo suas devidas adequações. Então, como uma pesquisadora me pergunto, porque tal problema ocorre em religiões tão diferentes? O que lhes falta?

Se na fundação da religião a entidade espiritual declara que a Umbanda significa a manifestação de espíritos para a prática da caridade, então seria correto afirmar que ela deveria ser pautada na simplicidade, no amor ao próximo e no estudo como ferramenta para melhor serviço religioso. O estudo para as religiões, e principalmente para a Umbanda que tanto tem se esforçado para o reconhecimento como religião séria e comprometida com a evolução espiritual da humanidade deve ser constituída por pessoas interessadas em aliar estudo, fé e ação.

E fé é confiança. Confiança em si próprio e na religião que escolheu para se ligar a Deus. Não falo de uma fé que nos torna reféns da religião, mas uma fé libertadora, que nos promove liberdade de escolha do caminho na busca pela evolução espiritual. E nessa busca, cada um deve encontrar o próprio sabor da fé!

“Cada coisa tem seu sabor. A matéria, o homem, a vida cotidiana com suas múltiplas facetas, tudo, enfim, tem um sabor peculiar. Se excluirmos da vida o sabor, ela perderá sua atração e o homem não terá mais vontade de viver. … O objetivo da fé é alegrar a vida, dar-lhe tranquilidade e permitir que se desfrute do sabor de viver. ”

(Mokiti Okada, Sabor da Fé, 25/01/1949)