Contos: O Lobisomem

Por André Caboclo

Na pequena cidade onde Tony vive desde que nasceu não há centro espírita. Em certo momento do passado, ele até tentou reunir diversas pessoas simpatizantes da doutrina de Allan Kardec – algumas delas dotadas de faculdades mediúnicas razoavelmente desenvolvidas – para iniciar uma sociedade e, quem sabe, posteriormente abrir um centro, mas, temendo o preconceito típico de um lugar onde todos se conhecem e vivem sob a égide dogmática do catolicismo, no fim das contas ninguém quis demostrar publicamente que “mexia com esse negócio de invocar espírito”.

            Assim, a forma que Tony encontrou para exercer a caridade espírita através das orientações superiores que se manifestavam pela sua mediunidade foi atendendo individualmente aqueles que procuravam por sua ajuda em uma sala contigua aos fundos de sua residência. Os atendimentos – que sempre foram gratuitos – aconteciam nas terças e quintas-feiras, a partir das 19 horas. Fabiano – um rapaz que Tony havia ajudado em um grave caso de obsessão – era quem voluntariamente recepcionava o público e distribuía, por ordem de chegada, dez fichas para os que seriam atendidos naquela noite. Geralmente, a fila de espera já começava a se formar na metade da tarde, na maioria das vezes, por pessoas vindas de outras cidades da região.

            Naquela quinta-feira, o primeiro da fila era um homem que aparentava ter próximo de trinta anos e aguardava desde as 15 horas trajando terno e gravata sob o forte calor da tarde. Apresentou-se como Argel e explicou ser advogado em uma cidade vizinha. Estava tão agitado que, quando Tony convidou-o a sentar-se, preferiu ficar de pé, caminhando em círculos de um lado para o outro da sala.

            Falando com visível aflição, Argel explicou o seu problema. Ele sofria com pesadelos recorrentes desde a infância. Em certas épocas, os sonhos – sempre terrivelmente realistas e assustadores – se repetiam por diversas noites consecutivas, enquanto que, em outros momentos, eles se tornavam mais esparsos, sem, contudo, jamais terem sessado totalmente. Ao longo do tempo, o rapaz já havia consultado diversos psicólogos e psicanalistas, sem sucesso. E para piorar a situação, no último mês os pesadelos retornaram com tudo, repetindo-se incessantemente todas as noites, mais realistas e apavorantes do que nunca.

            – Fale mais sobre o enredo destes sonhos… – pediu Tony.

            – Bem, a moral da história é sempre parecida, só com algumas pequenas variações. – explicou Argel, caminhando e gesticulando pela sala. – O sonho sempre inicia comigo diante da casa na qual a minha família morou durante muitos anos, em uma rua nos limites da cidade, com muita mata ao redor. Está anoitecendo e o céu tem uma aparência assustadora, como se além da penumbra natural do horário ainda tivesse carregado por nuvens de tempestade. Instintivamente, eu sei que preciso entrar na casa para encontrar algum dos meus familiares. Geralmente é o meu irmão caçula ou a minha avó que morava conosco, mas já houve casos em que era o meu pai, ou a minha mãe. É preciso fazer isso muito rapidamente, pois da floresta que há atrás da casa surge uma coisa… Um monstro que passa a nos perseguir. Eu nunca vi essa coisa com clareza, mas é preta, enorme e agressiva. Às vezes vejo pequenas árvores e arbustos tombando enquanto ela se aproxima, na borda da mata… E quando ela invade a casa, sempre é de forma violenta, arrombando uma janela ou arrebentando a parede de madeira. O pior é que, durante a fuga, invariavelmente os meus familiares acabam ficando para trás e são pegos pelo monstro. Isso não costuma acontecer diante dos meus olhos, mas eu ouço os gritos em meio aos rosnados da criatura. – o rapaz tremia e transpirava abundantemente durante sua narrativa. – E, no final das contas, sempre fico encurralado em algum lugar até o monstro surgir e saltar sobre mim. É nessa hora que eu acordo.

            Tony permanecia em silêncio, refletindo sobre as palavras que acabara de ouvir, enquanto o rapaz continuava zanzando pela sala, impacientemente.

            – Diga alguma coisa, homem! – esbravejou Argel. – Não sei mais o que fazer! Sinto que vou acabar enlouquecendo se esses pesadelos continuarem!

            – Bem, acho que podemos deduzir algumas coisas com base no seu relato… – disse Tony, com paciência. – Como os pesadelos começaram ainda na sua infância, provavelmente a razão está atrelada a algo acontecido em uma encarnação anterior. A hipótese mais comum é que se trate de um espírito obsessor, alguém que se sentiu prejudicado por você em outra vida e agora está agindo assim para se vingar.

            – Ora, se a intenção desse espírito vingativo é me enlouquecer, então está dando certo! – resmungou Argel. – Mas por que nos meus sonhos sempre aparece um monstro ao invés desse cara?

            – Provavelmente o monstro seja ele mesmo. Em A Gênese, Allan Kardec explica que, empregando a força do pensamento, os espíritos podem manipular os fluídos de seu corpo perispiritual até lhe dar a aparência que bem quiserem. Em O Livro dos Médiuns consta que um espírito pode momentaneamente assumir até a forma de um animal, se assim desejar e se tiver a força mental necessária para tal. Então, não é difícil supor que esta entidade vingativa que está lhe perseguindo assume a aparência de um monstro com o propósito de lhe apavorar ainda mais.

            – E, com certeza, está conseguindo! – concordou Argel.

            – Mas, a situação pode ser outra – continuo Tony, falando pausadamente. – Há espíritos que são tão degradados, do ponto vista moral e intelectual, que depois de algum tempo vagando pelo plano astral e alimentando permanentemente sentimentos pérfidos e ideias abomináveis, acabam deformando seus fluídos perispirituais de maneira que eles passam a assumir uma forma animalizada e monstruosa correspondente ao hediondo tipo de pensamentos e emoções que nutrem e com o qual se identificam. Se for um espírito muito perturbado e ignorante, talvez ele nem se dê conta da sua aparência grotesca, ou, mesmo que perceba seu estado, não sabe o que fazer para reverter a situação.

             – Na verdade, eu não me importo – disse Argel. – Só quero que você me explique como resolver o problema.

– O meu mentor espiritual está aqui me dizendo para você ir para casa e tentar dormir normalmente.

            – O quê?! – exclamou o rapaz. – Eu passei horas na fila! Não admito ir embora sem…

            – Calma! – interrompeu Tony. – O que eu quero dizer é que tentaremos resolver o seu problema durante o sono. Já que é nos sonhos que a entidade se manifesta, essa parece ser a melhor forma de trabalharmos.

            – Você realmente consegue fazer isso…? – perguntou Argel, com desconfiança.

            – Não é algo tão simples, mas, com o devido apoio é possível sim. Agora vá. Na saída, deixe todos os seus dados com o Fabiano e aguarde. Se Deus permitir, daqui a algumas horas trabalharemos no seu caso.

            Mais tarde, tão logo adormeceu, Tony sentiu-se invadido por uma energia que ele havia aprendido a identificar. Instantes depois, já se encontrava desdobrado em seu corpo perispiritual, em função do auxílio oriundo dos passes magnéticos ministrados pelo Índio Velho, seu mentor espiritual. Sem perda de tempo, transferiram-se para o apartamento de Argel e o encontraram dormindo.

Aplicando passes longitudinais em seu corpo físico, o Índio Velho conseguiu sem maiores dificuldades desdobrar o períspirito do rapaz. Contudo, Argel parecia como que entorpecido, sem perceber claramente a presença do espírito e do médium desdobrado que ali se encontravam.

Como se estivesse sendo atraído por uma força invisível, o rapaz rapidamente se projetou para fora do quarto, sendo seguido por Tony e pelo Índio Velho. Sem demora, estavam diante de uma casa que Tony logo deduziu ser aquela a qual Argel se referia em seu relato. A atmosfera ali parecia realmente mais densa, e o céu, tomado por nuvens de aparência enegrecida e opressiva, tornava a paisagem tão tétrica quanto havia sido descrita horas antes.

Sem aparentar hesitação, Argel entrou na casa tomada pela penumbra e seguiu até um quarto onde havia brinquedos e revistas-em-quadrinhos espalhados por todo lado. As fotos nas paredes e nos porta-retratos comprovavam que aquela era uma réplica astral do quarto que Argel possuía em sua infância. De repente, um urro terrificante irrompeu de algum lugar próximo, e o rapaz imediatamente assumiu uma expressão apavorada. Pela janela entreaberta do quarto, foi possível se avistar algo que se aproximava rapidamente por entre as árvores que ficavam nos fundos da casa. A coisa vinha rosnando, entre o som de arbustos sendo amassados e galhos de plantas se partindo durante sua passagem.

Em pânico, Argel saiu correndo pelo corredor e se enfiou pela porta que levava ao porão. No exato instante em que Tony e o Índio Velho começaram a descer as escadas, seguindo-o, ouviu-se um pavoroso estrondo que ecoou pela casa quando o mostro arrombou a janela logo acima. Tomado pelo desespero, Argel entrou no pequeno banheiro que ficava no fundo do porão e se encolheu no chão ao lado da privada, chorando compulsivamente. Tony e o Índio Velho entraram junto e puderam ouvir com clareza os rosnados da fera do lado de fora, tão logo a porta foi fechada.

– Vamos projetar um campo de força para bloquear o banheiro! – sugeriu Tony que, apesar da longa experiência mediúnica, já estava começando a se sentir apreensivo mediante o terrificante panorama que se constituía ali.

Contudo, o Índio Velho fez um sinal com mão pedindo para que esperasse. Em seguida, indicou para que ele se aproximasse da porta. “Apure a sua sensibilidade e identifique o que está ali fora”, ordenou o mentor telepaticamente. Tony permaneceu alguns instantes recostado, concentrando-se em silêncio.

– Não é uma entidade… – concluiu o médium em seguida. – É uma forma-pensamento muito forte, como um espectro.

O mentor espiritual maneou a cabeça, concordando. Em seguida, dirigiu-se até onde Argel encontrava-se encolhido e aproximou as mãos de sua cabeça, emitindo energia magnética. Tony aproximou-se e fez o mesmo. As energias fluídicas emanadas pelo Índio Velho e pelo médium desdobrado provocaram uma espécie de choque no corpo astral do rapaz, que pareceu recobrar a lucidez.

Por um instante, Argel olhou para Tony e o Índio Velho como se não entendesse o que estava acontecendo, mas, assim que a fera passou a rosnar de forma mais acintosa por detrás da porta, ele passou a suplicar por ajuda.

– Me ajudem! Me ajudem, por favor! O espírito-monstro está ali fora!

– Não é um espírito, Argel… – explicou Tony – É uma criação mental, um elemental artificial que ganhou vida aqui no plano astral através de estímulos psíquicos e emoções descontroladas emitidas repetidamente por você. Olhe através do buraco da fechadura.

– Não! Eu tenho medo! – gritou Argel.

– Não precisa ter medo – ponderou o médium. – Você percebeu que ela está parada lá fora e não lhe atacou como das outras vezes? É justamente o seu medo e a sua raiva que a fortalecem. Tenha coragem! Retire a força, dela!

O rapaz levantou-se enxugando as lágrimas e se aproximou lentamente da porta, como se as palavras do médium tivessem lhe transferido confiança. Com cautela, inclinou-se e espiou através da fechadura.

– Com o que essa coisa se parece? – indagou Tony.

– Com um… Lobisomem. – respondeu Argel.

– Sim, exatamente com um lobisomem, do tipo que estampa a capa de várias revistas-em-quadrinhos de terror que vimos no seu quarto. Aquelas histórias lhe assustavam?

– Sim… Sim…

– Mas há algo mais, não é mesmo? Há algo mais que agora você está entendendo.

– Sim… Estou entendendo.

– Então, me diga: como se mata um lobisomem?

– Com prata.

Tão logo Argel respondeu, Tony olhou para o Índio Velho de forma inquiridora. Sem perder tempo, o mentor espiritual começou a mover os braços, como se angariando e solidificando os fluídos do ambiente, que se tornavam cada vez mais resplandecentes e palpáveis. Segundos depois, uma espada com lâmina de prata estava fluidicamente constituída.

O Índio Velho entregou o artefato na mão de Argel e sinalizou na direção da porta.

– Vocês não poderiam fazer isso por mim? – perguntou o rapaz, ainda meio inseguro.

– Poderíamos – respondeu Tony. – Mas o resultado talvez não fosse o mesmo. Você criou aquela coisa e agora você vai destruí-la. Desse jeito certamente funcionará.

Sem dar tempo para novas hesitações, o médium abriu a porta e Argel ficou frente a frente com a forma-pensamento monstruosa. O primeiro impulso do rapaz foi de recuar mediante a visão da horrível criatura, mas, valendo-se de grande força de vontade, manteve-se firme.

Quando o monstro rosnou alto e avançou na direção de Argel de forma intimidadora, este não vacilou e desferiu um golpe diagonal com a espada de prata, atingindo a fera no peito. Depois de um instante onde pareceu ter ficado paralisada, a forma-pensamento passou a se dissolver a partir do corte que recebeu e, segundos depois, tudo que restava dela era uma espécie de névoa fluídica de cor escura que, na medida em que se espalhava pelo ambiente, adquiria tons progressivamente mais claros até se tornar de uma luminosidade branca e suave, quase imperceptível.

Com lágrimas de felicidade nos olhos, Argel ainda teve tempo de vivenciar uma sensação de profundo alívio antes de o Índio Velho lhe impregnar energeticamente através de um passe magnético que o induziu a um estado de sonolência propício para ser reconduzido ao seu adormecido corpo físico. A missão estava concluída.

Por volta das seis horas da manhã, Tony despertou com o telefone tocando na cabeceira de sua cama.

– Alô? – disse ele, com voz sonolenta.

– Sei que ainda é cedo, mas precisamos falar sobre a noite passada… – exclamou um empolgado Argel, do outro lado da linha.

– Do que você se lembra? – perguntou Tony, levantando-se da cama.

– De pouca coisa, mas sei que foi diferente desta vez e… Acho que você estava lá.

– Eu estava mesmo.

– E o que aconteceu com o espírito obsessor? Ele foi embora, não é mesmo? Sei que foi, pois percebo que algo mudou. Estou me sentindo bem melhor.

– Não era um espírito, mas sim uma forma-pensamento criada por você mesmo. – comentou Tony, adentrando em sua biblioteca particular.

– Como assim? – indagou Argel, confuso.

– Ontem eu mencionei com você o livro A Gênese, de Allan Kardec. Recomendo a leitura, em especial do capítulo intitulado “Os Fluídos”, onde consta a explicação sobre o fluído cósmico universal, a matéria elementar primitiva, cujas inúmeras variações constituem tudo que existe na natureza.

– Continuo não entendendo.

– No plano astral, estes fluídos são facilmente moldáveis através do pensamento – explicou Tony, com paciência. – É como se todas as nossas ideias e emoções pudessem se tornar mais ou menos materializáveis. Espere um segundo que vou tentar facilitar.

Rapidamente, o médium retirou alguns livros das prateleiras e sentou-se na escrivaninha. Abriu um exemplar da obra Magos Negros, de Robson Pinheiro e iniciou a leitura de um trecho:

– “Toda manifestação do pensamento humano costuma forjar no ambiente extrafísico uma forma vaporosa, de início. À medida que é alimentada por pensamentos recorrentes, desejos e principalmente emoções, adquire gradativamente uma forma mais densa e pulsante. Essas formações de pensamentos gravitam em torno de ambientes e pessoas com um tipo de existência que pode durar anos, séculos ou milênios, como também ser fugaz e passageira como o vento. Tudo depende da tenacidade empregada pela mente que a gerou, da vontade mais ou menos firme e do vigor da emoção que a alimentou – processo que pode ser deliberado e consciente ou não; não importa”.

Do outro lado da linha, Argel permanecia em silêncio, ouvindo com atenção. Tony continuou:

– “As formas-pensamento enfermiças geralmente assumem aparência condizentes com imagens que habitam o inconsciente coletivo, apresentando aspectos repulsivos até quando se mostram amorfas, mas que podem guardar semelhança com aranhas, escorpiões ou lagartas; de qualquer modo, sempre trazem grande potencial destrutivo. Enquanto permanecem alojadas em torno da pessoa, corroem a estrutura defensiva da aura e sugam-lhe as energias vitais, causando baixa resistência e imunidade energética deficitária”.

– Jamais imaginei que as coisas pudessem ser dessa forma. – balbuciou o rapaz, chocado.

– Essas formas-pensamento são muito mais comuns do que se imagina – explicou o médium. – Tanto que há uma vasta bibliografia sobre elas não só no que se relaciona ao espiritismo, mas também em diversas linhas do ocultismo, como a teosofia e o hermetismo. Existem diversas variações, inclusive de nomenclatura; alguns autores falam em larvas astrais, espectros, fantasmas, mas a lógica é sempre a mesma: ideias e emoções exacerbadas e repetitivas que criam artificialmente um ser que ganha vida extracorpórea.

– Então, a aparência desta tal forma-pensamento que me perseguia…

– Era um lobisomem, certo? Semelhante ao das histórias-em-quadrinhos que você costumava ler. De forma inconsciente, sua mente moldou a criação de acordo com algo que lhe despertava o medo. Mas, agora me diga Argel, do que você tinha medo? Que sentimento foi esse que originou aquela coisa horrível?

– Bem, na verdade, a época em que vivi naquela casa foi difícil – disse o rapaz, com certo constrangimento. – Meus pais bebiam muito e brigavam o tempo inteiro. Quebravam coisas, se agrediam e às vezes agrediam a mim e ao meu irmão. Era um inferno permanente. Eu tinha medo que em um momento de embriaguez um deles acabasse matando ao outro, ou matando a nós todos.

– Isso explica muitas coisas.

– Mas, não entendo… – continuou Argel, com voz embargada. – Mais tarde nos mudamos daquela casa, meus pais se trataram, pararam de beber e se reconciliaram. Não vejo por que essa forma-pensamento continuou me atormentando.

– Porque, para você, o trauma já estava constituído – explicou Tony, foleando outro livro. – Ouça esses trechos do livro O Plano Astral, de C. W. Leadbeater: “Um homem que, por exemplo, acalente demoradamente um desejo, forma para si mesmo uma espécie de companheiro astral que, alimentado constantemente pelo pensamento predominante, pode acompanhá-lo durante anos, ganhando progressivamente força e influência sobre o seu criador. Quando o desejo é um desejo de mau caráter, a influência sobre a natureza moral do homem pode vir a ser de desastrosas consequências”. – após uma breve pausa, o médium prosseguiu. – “Além disso, parece que a entidade assim formada é atuada por um desejo instintivo de prolongar a vida, reagindo sobre o seu criador como força tendente constantemente a provocar a renovação do pensamento que a originou”. Ou seja, Argel, sempre que você se lembrava daquela época traumática e revivia os sentimentos negativos daquele período, a forma-pensamento ganhava força. Chegou um ponto em que ela mesma passou a se encarregar de incutir o medo na sua mente, para assim se nutrir da sua energia psíquica. A maneira mais fácil encontrada para isso foi lhe atormentar durante o sono, pois com o seu corpo físico em repouso, seu períspirito se tornava acessível no plano astral.

– Confesso que estou muito impressionado. – disse o rapaz. – Mas, agora ela se foi, certo? Posso acreditar que estou livre?

– Você realmente a destruiu na noite passada. Porém, devo lhe advertir que, se você continuar rememorando o trauma daquela época, é só uma questão de tempo até sua energia psíquica trazer a forma-pensamento de volta, ou criar uma nova de teor semelhante. Por isso recomendo que você procure o auxílio de um terapeuta. A única maneira de se manter imune é preservar a mente disciplinada, sem alimentar ideias e sentimentos de ordem negativa.

– Ok, vou providenciar uma consulta. Faço qualquer coisa para que aquele terror não recomece.

– Há algo mais, Argel – disse Tony, de forma cuidadosa. – Lembro que ontem você comentou que os pesadelos tinham piorado muito nas últimas semanas. Certamente há uma razão para isso. Tem ideia do que possa ser?

– Sim, acho que sei a razão – respondeu o rapaz, de forma perceptivelmente emocionada, depois de permanecer alguns segundos em silêncio. – No mês passado terminei o meu noivado, que já durava quatro anos. Foi algo muito difícil.

– Entendo – comentou o médium. – Com certeza há uma correspondência energética com um estado emocional e psíquico semelhante aos momentos ruins que você vivenciou no passado. Isso deu força extra para a forma-pensamento enfermiça.

– Provavelmente foi isso mesmo – concordou Argel. – Mas, vou superar. Obrigado por tudo, e espero que você possa sempre continuar ajudando aos outros como me ajudou.

– Fique com Deus. – finalizou o médium.

Alguns tempo depois, Tony recebeu um e-mail que, apesar de sucinto, o deixou muito contente:

“Prezado Antônio 

Já faz dois meses que os pesadelos cessaram completamente e me sinto um novo homem. Comprei os livros que você mencionou e achei a leitura muito esclarecedora. 

Talvez você vá gostar de saber que reatei o meu noivado e vamos nos casar no início do ano que vem. 

Quero mais uma vez expressar a minha gratidão, por tudo. 

Que Deus o abençoe! 

Argel”.

André Caboclo é o pseudônimo de um homem livre e de bons costumes, comprometido com o autoconhecimento e empenhado na eterna busca pela Verdade.

André Caboclo

André Caboclo é o pseudônimo de um homem livre e de bons costumes, comprometido com o autoconhecimento e empenhado na eterna busca pela Verdade.

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