Em muitos e-mails, comentários e mensagens recebo uma pergunta repetidamente: “Exu do Ouro existe?”. Para esse tipo de pergunta eu só consigo responder: “Sim e Não”.

Confuso não é mesmo? Pois é!

Exu do Ouro é visto – ao lado da sua consorte menos conhecida a Pombagira do Ouro – como um trabalhador de esquerda que atua nos campos da prosperidade material e que vem sob a irradiação da energia de Oxum. Sua associação com Oxum se daria supostamente devido a Orixá atuar nos domínios da prosperidade material, focada no minérios, dentre eles o Ouro.

Porém, a associação com minérios se dá também em outras mitologias como por exemplo na escandinava onde anões (duendes em alguns casos) extraiam as pedras e minérios do seio da terra e também de Plutão, que por ser o senhor do mundo subterrâneo, teria também acesso aos veios de metais e pedras preciosas. Mais a frente irei citar o porque dessa comparação…

Então, Exu do Ouro seria uma divindade de esquerda associada a uma força regente da natureza – Orixá –  que traria prosperidade para seus cultuadores. Sendo assim, uma entidade atuante em um dos caminhos que causam mais desconforto no plano material, deveria ser extremamente popular nas literaturas mais antigas e também altamente cultuado no início das práticas espirituais com o povo da esquerda, correto?

Pois é! Só que não encontrei em literatura alguma essa informação. Nas que existem, são todas pós 1999 ou vem de uma única vertente ou são influenciadas por essa vertente.

É uma escrita de pós-verdade adaptada após a popularização dessa entidade no culto que muitos lhe tem praticado. Então se for prestar atenção nesse detalhe, podemos definir que EXU DO OURO não existe!

Mas ele existe! Pelo menos agora existe.

Segundo a vertente e os influenciados que cultuam essa entidade ele seria um novo mistério revelado. Sendo assim, não seria possível encontrá-lo em literaturas antigas.

Contudo, para confirmação de um mistério espiritual existe sempre a regra do “desconfiar de tudo”. Se aplicarmos o  Controle Universal do Ensino dos Espíritos (CUEE), veremos que esse mistério revelado não passa na primeira análise.

Para ter credibilidade ele deveria passar por uma revelação múltipla em vários pontos da prática espiritual e não somente dentro de uma vertente ou de influenciados desta.

Deveria ter aparecido de forma simultânea em Quimbandas, em Umbandas Tradicionais, em Umbandas Populares e alguns Umbandomblés que nunca ouviram falar da NeoUmbanda que promulga essa entidade. Mas novamente eu afirmo que em tudo que estudei sobre essa entidade e sobre espiritualidade só achei a informação dentro da própria NeoUmbanda.

Com esse pequeno entrevero, alguns dizem que na verdade é um Exu que tomou outro nome. Que devido a “má-fama” adquirida com o nome anterior acabou por adotar o nome de Exu do Ouro. O Exu que era considerado como sendo o precursor do Exu do Ouro seria o Exu Chama-Dinheiro.

Exu Chama-Dinheiro, dentro do que compreendo como Quimbanda da Umbanda, é um Exu que trabalha sob a égide do Exu Pedra Negra, esse sim controlador dos domínios dos Bens e Riquezas, Negócios, Comércio, Tesouros Escondidos e que é um exu que trabalha dando fama e dinheiro para as pessoas. Lembra muito os padrões dos contratos e pactos em encruzilhadas cantados – belamente – no blues americano da Louisiana, não é?

Então seria mais correto – se fosse para um exu mudar de nome – que o Exu Pedra Preta/Negra mudasse de nome e não seu subalterno o Exu Chama-Dinheiro. Porém, segundo o próprio sacerdote da Umbanda Sagrada e escritor do Livro Exu do Ouro, afirma que:

  1. A linhagem de Exu de Ouro ganhou abertura e manejo de culto a partir da primeira turma de sacerdócio montada por Rubens Saraceni.
  2. Exu Chama-Dinheiro não teve culto devido e se recolheu (sumiu) para dar lugar ao Exu do Ouro.

Sobre o caso 1.

Sobre o caso 2

E aqui entra a minha ressalva, resgatando a mitologia de linhas anteriores: Exu é uma figura controversa mas ainda assim focada no material, não há uma clara lucidez no que tange a moralidade ou evolução moral, porém podem – e muitos são de fato – evoluídos intelectualmente o que lhes angaria grande poder de ação. Mas ainda assim continuam sendo Exu e na barganha, na troca é compreendido isso – pois o dinheiro envolve troca e barganha – que algo é dado para outro algo ser repassado. Há de ter um trato ou contrato para que algo lhe seja dado em qualquer campo, principalmente envolvendo algo tão material e carnal quanto o dinheiro e o ouro em si.

Se for pensar no Ouro Alquímico como elevação espiritual, todo o discurso de prosperidade material se perde e o Exu do Ouro não poderia ser Exu para começar. Nisso encontramos o respaldo das outras mitologias, pois anões, duendes e até mesmo Plutão não fazem nada de graça, para tudo tem que haver uma contrapartida.

Desta forma, podemos dizer que Exu do Ouro é uma invenção da NeoUmbanda que acaba explorando a necessidade e a fragilidade (além da ambição) daqueles que precisam de bens materiais ou de meios de conquistar dinheiro. Então o Exu do Ouro não EXISTE!

Por outro lado, atualmente ele EXISTE, pois ao se compreender sobre magia e espiritualidade nos deparamos com a criação de SERVIDORES.

Servidores são formas-pensamentos alimentadas e com propósito que ficam limitadas a seus aspectos de criação, cumprindo a função dada por seus criadores.

Em algumas tradições são chamados de elementares ou elementais artificiais, porém alguns conseguem angariar tanta energia que se tornam muito poderosos, por vezes, podem tomar um nível de senciência no meio que atuam e até mesmo quebrar algumas amarras conforme seu arquétipo e conforme seu culto. Um Servidor pode se transformar numa TULPA¹ ou até mesmo numa deidade menor, conforme se lhe é dado energia e alimento para tal.

Então hoje, a partir da crença de muitos que dão oferendas e muitas energias próprias suas (energia vital) acabaram alimentando uma entidade artificial criada pela necessidade, ganância e principalmente pela facilidade e ilusão de se ter alguém que transmite a você caminhos mais fáceis para conseguir um objetivo material. Enquanto ela estiver sendo alimentada, ela estará viva.

Alguns podem se perguntar: “Mas o que há de ruim nisso? Muitos magos não criam seus servidores para propósitos similares?”.

Claro que criam e temos exemplos como os “40 Servidores” e também o “Abralas” que atuam em campos materiais (também).

Porém a diferença é que desde o princípio quem mexe com os “40 Servidores” e com o “Abralas” sabe que ele é um servidor e não uma entidade ancestral, conferindo a ele (ou pelo menos deveriam) a sua real condição que é a de “SERVIR” e não de se subjugar para o servidor ou entidade artificial.

No caso do Exu do Ouro – e de vários outros exus – as pessoas rendem cultos, se subjugam e até mesmo agradecem o “paizinho” pela ajuda e graça concedida. Nesse aspecto prefiro Santo Expedito que só te cobra umas imagenzinhas espalhadas por aí.

Então a diferença está na transparência da apresentação do mesmo! Mas é difícil falar para o Umbandista que talvez aquela entidade não seja um espírito de fato e sim uma criação mental de um mago, pois umbandista hoje em dia tem preguiça de pensar fora dos livros da NeoUmbanda. Virou tudo uma grande facção da igreja trocando a Bíblia por livros de capas duvidosas.

Sintetizando: Exu de Ouro Existe? Não de fato, mas acabou sendo criado um ser artificial com essa alcunha.

A Pombagira do Ouro que é menos cultuada também tem menor poder, por que será? Claramente porque não é alimentada da mesma forma que o Exu do Ouro. Lembrando que um servidor tem que estar cumprindo seus propósitos.

Já pensou qual é o propósito de um arquétipo de Exu? Recomendo o texto “Amoralidade de Exu” para que se compreenda melhor.

Você cultua Exu do Ouro e funciona para você? Excelente! Porém tenha ciência de quem será a outra parte nesse contrato que você tá assinado e leia as letrinhas pequenas.


¹ Leia sobre Tulpas no texto do Projeto Xaoz: https://medium.com/@projetoxaoz/cuidado-com-a-tulpa-7409fd884c6