Festividades de Cosme e Damião chegando e todo mundo feliz com muito doce, guaraná e brincadeiras. Então com essa alegria que as crianças nos trazem, nosso primeiro pensamento é sempre de FAZER UM AGRADO AOS ERÊS ou pedir sua ajuda.

Por quê não? Afinal são entidades tão encantadoras! Que mal que uma criança pode fazer? Vamos lá fazer uma firmezinha e pedir algo para um Erê?!

NÃO! NÃO FAÇAM ISSO!

As pessoas que me acompanham lá no Instagram do Perdido (agora Papo na Encruza) sabem o quanto eu digo para deixar os erês em paz. Muitos estranham essa atitude, afinal eles são seres puros, muitas vezes associados a anjinhos gordinhos de asas e até mesmo as crianças inocentes terrenas. Ledo engano!

Zélio Fernandino de Morais, fundamentador da Umbanda, quando perguntado sobre exus, acrescenta algo muito importante também sobre as crianças, como transcrito abaixo:

Considera o Exú um espírito trabalhador como os outros?

“- O trabalho com os Exus requer muito cuidado. É fácil ao mau médium dar manifestação como Exú e ser, na realidade, um espírito atrasado, como acontece, também, na incorporação de Criança. Considero o Exu um espírito que foi despertado das trevas e, progredindo na escala evolutiva, trabalha em benefício dos necessitados.

As crianças ou popularmente conhecido como eres são seres muito complexos de se trabalhar, então a cobrança de erê será pior do que de Exus. Muitos sabem daquela máxima da macumba que diz: “O que um erê faz, só um erê consegue desfazer”, pois eles tem um nível de pureza (e isso não quer dizer bondade) e também uma capacidade mágica tão grande, que nenhuma outra entidade consegue desfazer o que eles fazem.

Inclusive existe muita mística sobre os erês, sendo que alguns postulam que são espíritos de crianças desencarnadas, o que não faz sentido dentro da minha lógica, assim como também postulam que são as crianças da direita são bondosas, quando os da esquerda, vulgarmente e erroneamente chamados de Exus-Mirins, são os “negativos e trevosos”.

Ambos estão equivocados dentro do meu ponto de vista e isso, pela lógica e pelo bom-senso (e com um pouquinho de estudo) é bem compreensivo.

Erês não são crianças desencarnadas.

Primeiramente temos que compreender como se dá o processo de encarne e desencarne, então peço que preste bastante atenção e releia o texto várias vezes. Se ainda estiver com dúvidas, não furte-se a mandar mensagens, porém tente se embasar. Recomendo a leitura do Livro dos Espíritos para tal.

Quando encarnamos definimos um ou mais objetivos para essa encarnação, logo temos por definição algo a ser perseguido nesta vida, que nos fará “evoluir” ou atingir o ponto em que queremos estar. Claro que nesse caminho podemos sofrer de angústias, amarguras e algumas (quase todas) as vezes podemos estacionar e angariar mais karma para nossas vidas.

Mas, o que quero deixar claro aqui é que o magnetismo da experiência terrestre e encarnada é tão grande e tão presente, que levamos para o plano astral e espiritual nossas personalidades e características. Veja as perguntas abaixo que extraímos do Livro dos Espíritos:

  1. Que dizer dessa outra teoria, segundo a qual, na criança, a alma vai se completando a cada período da vida?

 — O Espírito é apenas um: inteiro na criança, como no adulto; são os órgãos, instrumentos de manifestação da alma, que se desenvolvem e se completam. Isto é ainda tomar o efeito pela causa.

  1. O Espírito de uma criança morta em tenra idade é tão adiantado como o de um adulto?

 — As vezes bem mais, porque pode ter vivido muito mais e possuir maiores experiências, sobretudo se progrediu.

  1. O Espírito da criança que morre em tenra idade, não tendo podido fazer o mal, pertence aos graus superiores?

 — Se não fez, o mal, também não fez o bem, e Deus não o afasta das provas que deve sofrer. Se é puro, não é pelo fato de ter sido criança, mas porque já se havia adiantado.

O que podemos concluir aqui é que o Espírito é uma individualidade formada pelas muitas existências. Desta forma, ele não é infantil em aspecto nenhum, sendo que só está infantilizado pela condição do seu corpo material, que lhe impede de possuir todas suas faculdades e pelo véu do esquecimento das vidas pretéritas, que com o desencarne é levantado e pode-se ter vislumbres e, até mesmo, total lucidez das vidas anteriores, conforme o adiantamento ou desprendimento do espírito.

Em outras palavras, um espírito que tenha passado uma existência humana como Manoel, por mais de oitenta anos terrenos, ao desencarnar recebe a opção de retornar ao mundo como o infante João. Este, por questões que não vem ao caso agora, falece com sete ou menos anos, retornando o seu espírito para a pátria espiritual.

Será que esse espírito terá mais influência dos sete anos vividos como João ou dos oitenta anos vividos como Manoel? Com o espírito liberto, bem capaz (e de fato isso ocorre) do espírito retomar uma encarnação que lhe tenha sido cara e que ele tenha plena consciência e maturidade. Desta forma, João voltaria a se apresentar como Manoel, mantendo toda a consciência e lembranças também da vida passada como João.

Desta forma, não há como existirem crianças espiritual. Pelo menos não crianças humanas.

Mas vejo crianças se manifestando nos terreiros. O que são?

O que vemos como crianças nos terreiros podem ser duas categorias de espíritos ou entidades. Vamos nos fixar primeiramente na questão do espírito humano que pode, por via das dúvidas, se manifestar como uma criança para trazer a mensagem ou até mesmo sensibilizar a vidência de alguns médiuns, quando é necessário o conforto da família. Pode até mesmo se manifestar dessa forma para “quebrar as amarras” de determinados médiuns, mas eles não são crianças de fato e não possuem acesso a esses poderes tão promulgados aos erês.

A outra categoria a que podem pertencer são dos espíritos encantados, que não passaram por existências humanas, mas podem estar sendo preparados para tal. São espíritos essenciais, pois são puros em essência. Essa essência diz respeito a proximidade de fonte primordial da energia natural, o que lhes possibilita terem grande capacidade de resolução mágica, pois estão diretamente conectados as fontes.

Muitos desses erês ou crianças encantadas dizem que nunca tiveram papais e mamães e tem até uma certa estranheza quando as coisas da vida cotidiana terrena.

Podem demonstrar certa impaciência, certa intolerância, birra e até mesmo ignorância sobre as coisas mais normais da vida. Desta forma eles compreendem que ao se prometer algo a eles, aquilo deve ser feito. Como não possuem amarras morais e nem estão sujeitos a lei de causa e efeito (aplicada apenas aos que encarnam), os mesmos não se sentem constrangidos a punir quem desobedeceu o acordo firmado.

Que mal pode haver em um pratinho de doces?

Já percebeu como muitas mitologias ao redor do mundo usam a figura de crianças endiabradas ou amaldiçoadas para causar medo? Pois é…

O problema é que ao dar algo e pedir algo, você está firmando um contrato. Não seja inocente em acreditar que todo espírito é “lindo, charmoso e cheio de luz”. Espíritos são humanos sem matéria em grande parte, logo encontramos de tudo. Pior, que alguns são encantados que nem sabem o que é ser humano de fato e não possuem empatia alguma pelo que somos. Tem noção da gravidade disto?

Se prometer algo para o erê cumpra! E também esteja ciente de que nem sempre você irá receber o que você quer, até porquê eles nem sempre entendem o que nós queremos por essa falta de familiaridade com as necessidades humanas.

Justamente por isso a maioria dos erês vem acompanhadas de pretos ou pretas velhos, para servirem de bússola moral para os mesmos. Quantas vezes vocês não ouviram no terreiro: ” – Tio não posso dizer ou fazer isso porquê o Vô ou a Vó não deixa?”.

E as crianças de Esquerda?

Os supostos Exus-Mirins, que não são de fato espíritos da falange de Exu-Mirim, são outra incógnita para muitos. Inclusive, o argumento mais usado para refutar a minha fala (e de outros pesquisadores) é de que se eles não existissem eles não se manifestariam como crianças nas giras de esquerda. Entendem como esse argumento é frágil?

Percebam! A palavra Erê em Yorubá significa “brincar” e não criança, como somos levados a crer. Os Erês se manifestam primariamente nos candomblés, sendo o mensageiro do Orixá do Iyawo, trazendo mensagens deste e fazendo o intermédio entre a energia do Orixá (e ele em si) e o encarnado.

O Erê do Cadomblé, para quem já viu um, é um traquinas, de difícil trato e deve ser doutrinado, para posteriormente poder dar consultas, receitar ebós e afins. Isso leva certo tempo!

Não existe Erê sem Orixá e não há como o Orixá se manifestar sem o Erê, ele é força primitiva, que reside dentro do limiar do consciente e inconsciente do médium. Ele traz os rituais, as danças e os costumes do Orixá.

Desta forma, dentro do que posso analisar e racionalizar, os supostos “exus-mirins” são nada mais do que erês não doutrinados que se manifestam em médiuns menos doutrinados ainda. Todo mundo gosta de dar vazão as suas questões, principalmente a criança dentro de nós que foi magoada, maltratada e traumatizada. Tá aí a terapia, Freud, Jung e os demais estudiosos para não me deixar mentir. Quanto do nosso inconsciente se desprende no transe e chamamos isso de erê ou, pior, exu-mirim?

E por quê a Umbanda trabalha com as crianças então, se são tão nocivos?

Pois a Umbanda, dentro da frase promulgada pelo sábio Caboclo das 7 Encruzilhadas disse que não iria se virar as costas a nenhum espírito. Desta forma o erê tem um papel fundamental de ir buscar a energia essencial do Orixá (em outros nomes pode ser até mesmo a energia básica do Universo, dentro da nossa teoria dos potes de força) e trazer para o plano material, para ser trabalhada ou ajudar alguém.

Conclusão

Os Erês ou a falange das Crianças não são entidades que se deve levar na brincadeira, apesar de serem brincalhões. A maioria das divindades mais poderosas e traiçoeiras são conhecidas como tricksters, e eu acredito que os erês estejam dentro desta categoria. Outra coisa, os erês ou crianças foram associados a Cosme e Damião posteriormente, na Umbanda Tradicional, a falange de Cosme e Damião, dentro das Linhas de Oxalá, são responsáveis por curas físicas. As crianças entraram posteriormente, pois eram chamadas para trazerem essa energia (Axé ou Moyo) pois tinham acesso a fonte principal e mais pura dessas energias curativas.

Então nessa celebração sincrética de Cosme e Damião você irá sim passar na gira com as entidades, não irá pedir nada e só comerá o doce que elas dão. Não prometam nada também e se prometerem cumpram rápido. Fica o aviso, mas caso queiram me ignorar… BOA SORTE…

“Eu quero doce
Eu quero bala
Eu quero bolo 
Para jogar na sua cara”