A imagem que ilustra esse artigo foi retirada do Facebook. Não sei o que tá acontecendo, mas Saci agora é moda dentro de terreiro de Umbanda, só que deturparam tanto o mito, erraram tanto a lenda, que chega a ser constrangedor ver isso.

Como disse um seguidor, após o Oxumaré do Cemitério, fica difícil aceitar certas coisas que se promulgam como “minha verdade”, sendo que na verdade não é bem assim. Motivados por um “tudo pode, tudo é lícito” acabam incorrendo em verdadeiros absurdos, indo contra todo fundamento e principalmente contra a história, a sociologia e a antropologia da religião e dos mitos.

Saci não foi e não é uma entidade humana, ele é a a junção de mitos europeus (como o fradinho da mão furada), mitos africanos (Ossaim e Aroní) e mitos indígenas (Matinta Perera). Eu vou deixar logo abaixo desse post, uma reprodução do artigo que foi lançado na Revista do Colecionador de Sacis, comemorando os 100 anos do Inquérito do Saci.

Mas o que quero deixar claro aqui é que Saci não incorpora, não foi humano, não é filho de Iansã, não foi atropelado por carruagem, não é linguagem poética, não é exu, não é erê e muito menos guardião. Saci é um trickster, um encantado, que aplica peças, alguns possuem presas, se alimentam de sangue e desordem e são extremamente versáteis.

Não permita que pela “liberdade de pensamento” sejam propagadas tantas besteiras, pois o mínimo que se pede é coerência, lógica e bom-senso. Entenda o mito para poder falar dele e não misture tudo num só balaio.

 


SACI TAMBÉM PULA EM TERREIRO DE UMBANDA #SACI100

Quem vê a gira de Umbanda, pode se perguntar, mas onde pode entrar Saci aqui? Religião trata realmente de folclore e mitologia? Então, respondo a vocês: Com toda certeza, tem saci dentro dos terreiros de Umbanda.

A Umbanda é uma religião brasileira com influências múltiplas das culturas formadoras do povo brasileiro. Encontramos elementos da cultura indígena africana e suas muitas tradições (com predomínio da cultura Nagô, Malê, Fon e Bantu) e também europeia. Desse amalgama todo, surge o povo brasileiro, a cultura brasileira, a Umbanda e também a figura que conhecemos hoje por Saci-Pererê.

De fato, muito dos elementos do Saci são herdados dessas figuras que se fundiram a entidade original. Como o mental coletivo é quem dá forma ao mito, isso é totalmente compreensivo. Podemos dizer que a pele negra acaba sendo herdada dos orixás Ossaim e Arôni. A forma de redemoinho e a própria perna única pode ser associada a essas duas entidades africanas, variando conforme a lenda. Mas e o cachimbo? Pois bem, Arôni possuía um cachimbo feito da concha de um caracol, no qual ele usava diversas ervas, não necessariamente o tabaco, um produto tradicional da pajelança latino-americana.

A figura do Saci é mais presente nas questões filosóficas e míticas da religião, não se apresentando de forma ostensiva dentro dos terreiros de Umbanda. Ou seja, o Saci não incorpora, mas pode ter sua presença evocada para determinados trabalhos, conforme a vertente que se pratica. Alguns dirigentes e praticantes acabam substituindo a figura do Saci pelo próprio Ossaim ou Arôni e outros tantos pelas figuras de Exu e Exu-Mirim. Contudo, as Umbandas com um viés mais de encantaria, conseguem trabalhar muito bem com a entidade Saci-Pererê, seja ela um elemental natural ou artificial, conforme alguns estudiosos do assunto debatem, ao ofertarem ao saci ervas, cachaça e fumo.

Aliás, esses elementos estão associados a diversas outras manifestações, seja dos próprios Exus, quanto de outros encantados, como o Negô d’água e muito mais. Praticamente temos a presença de fumo e cachaça (ou marafo, na linguagem de terreiro) em praticamente todas as evocações e em todos os “pagamentos” pelos serviços prestados.

A forma de manifestação do Saci, cabe bem na Umbanda, nas questões que precisam de interferência para descomplicar a vida das pessoas. O Saci, como um moleque levado, sabe exatamente como outros levados pensam, e pode por meio de sua sagacidade envolver os “adversários” em situações complicadas, impedindo que esses pratiquem o mal contra os seus protegidos.

Esse é um papel que também cabe a Exu dentro da Umbanda, onde percebemos como essa figura se encaixa bem nas linhas de Esquerda. O Saci, apesar da imagem até inocente que temos dele, graças a Monteiro Lobato, é um trickster (categoria de deidades ou entidades que são dúbias) e pode causar tanto “dores-de-cabeça” quanto ajudar sem a menor cerimônia, só porque querem.

Os Pretos-Velhos de Umbanda, contam causos de moleques levados que sempre dão trabalho para eles, mas que também trabalham embaixo de suas “vistas” para a prática das “mirongas de negô”. Dizem que para você chamar o Saci, basta assobiar com um bocadinho de fumo e um golê de Marafo que o moleque arteiro vem logo para te ajudar.

Dentro da Umbanda não se trabalha com práticas negativas para prejudicar alguém. Então o Saci, assim como todas as entidades, tem uma função de caridade e de prestação de serviços, para descomplicar a vida e desimpedir os caminhos. São seres mal compreendidos e deixados de lado, assim como os Exus, pois poucos querem se dar ao trabalho de compreender a complexidade de suas ações. Não podemos julgar, pois se até Maria Mulambo queria arrancar o couro do moleque serelepe para fazer uma casaca, imagina só o que ele não aprontou com a Moça?

A Umbanda como uma religião que utiliza muito de simbologia e metáforas, respeita as crenças, lendas e mitos que já existiam na terra brasileira, compreendendo que todos são interpretações para forças provenientes da Divindade Criadora e que são lícitas de serem evocadas, trabalhadas e também reverenciadas (mas não idolatradas) desde que a prática do bem sempre paute todos os trabalhos.

Saravá ao Saci e Saravá a todos os encantados brasileiros!