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Essa história ocorreu em um dia de finados, uma das homenagens que se faz para as almas todo ano em meio aos terreiros de Umbanda. Geralmente se homenageiam os antepassados e também a força de Omulu e Obaluayê, para alguns o mesmo Orixá.

Lembro a todos que leem essa coluna, que a mesma é extremamente polêmica e não tem a premissa de menosprezar a Umbanda praticada em suas múltiplas formas. São apenas relatos das experiências que passei e do que encontrei nessas casas, algumas das situações foram bem peculiares e outras eu julgo erradas, mas não estou aqui para definir um julgamento, apenas para repassar as impressões e o relato, para que cada um pense por si.

Sou a favor da múltipla cultura umbandista, porém sabemos que justamente isso causa também muita “maluquice” e exagero por aí. Então vejo que é uma coluna importante – apesar de romper com o Status Quo e ser politicamente incorreta – para o aprendizado de todos.

Vamos ao relato então sobre o dia que não ensaiaram bem a homenagem para as Almas!


Geralmente, quando visito algum local é por convite de conhecidos e amigos, que querem saber a minha impressão sobre o local. Claro que prontamente vou, se puder ir, para conhecer novas casas e terreiros, pois assim posso também aumentar meu leque de opções para indicar para as pessoas que não podem se locomover até o local em que trabalho. É sempre bom saber onde tem um ponto de luz aberto, para poder indicar.

Haveria uma comemoração de finados nas datas próximas e quando digo comemoração é justamente isso, pois nós espiritualistas comemoramos que nossos antepassados deem prosseguimento a suas jornadas evolutivas no plano espiritual. Ficamos tristes como todos, porém entendemos que a vida continua e que assim deve ser, por isso comemoramos que eles se encontrem em mundo melhor, rogando para que estejam conscientes de suas novas condições e trabalhando pela caridade.

O local era próximo a um outro grande terreiro vultuoso e de um renomado dirigente espiritual com diversas obras publicadas, porém não era atrelado a sua filosofia. Nesta época eu estava confiante sobre a literatura umbandista da nova era e até mesmo digamos, seduzido por suas bases teológicas. Justamente por isso vi naquele momento uma oportunidade de conhecer um terreiro em outros moldes, tão próximo de um que estava massificando o conhecimento da Umbanda, sob seu ponto de vista.

Chegando ao local, percebi que era bem singelo. Uma porta comercial com aquelas lâminas de aço e um salão pequeno, onde se dividia entre a clássica área da assistência e a área sagrada, o sanctum sanctorum, o congá. Fomos recebidos e sentei-me na primeira fileira para acompanhar tudo.

O que me chamou a atenção é que apesar do local ser pequeno, contava com uma estrutura de som profissional para a curimba. Os curimbeiros possuíam microfones e cantavam mais alto que os toques de atabaque, e foram cantados diversos pontos, manifestando o louvor aos Orixás e a Deus. Inclusive o próprio dirigente da Casa, que gostava de ser chamado de Pai-de-Santo e me lembrava muito o personagem Samwell Tarly do seriado Game of Thrones (inclusive agora lembra mais ainda pelo personagem sempre usar preto), pegava o microfone diversas vezes para puxar o ponto.

Fui informado de que ele era jovem, na casa dos 25-30 anos e que seus pais trabalhavam no terreiro também. Via também alguns médiuns lá e o que me chamou muito a atenção foi a estrutura montada no centro do terreiro, uma espécie de cabana ou barraquinha, feita de bambu com uma cobertura de palha-da-costa e muitas folhas no chão.

Após a cantoria, começou a saudação das linhas, primeiro saudando Oxalá (e me dando um conforto no coração por isso):

Saravá Oxalá! – Exclamou o Pai-de-Santo.

– Oxalá yê, meu pai! – Repetia os filhos da casa.

Curioso, pois nunca havia visto essa forma de saravar as entidades. Começaram a cantar para Oxalá e prontamente começaram a cantar para a Esquerda, saudando Exu e Pombagira e o Exu do chefe-da-casa, se manifestou prontamente. Pediu cartola, pediu uma capa de camurça (ou algo similar) e seu cetro e começou a CANTAR PONTOS!

Nunca havia visto um Exu cantando pontos, ainda mais tão similarmente ao tom de voz do próprio pai-de-santo desincorporado. Porém, visto que pode ser uma incorporação consciente, deixei isso ao lado e prossegui com as observações. Então todos estavam manifestados em Exus e Pombagiras, o que me levou a estranhar pois achei que era uma festividade para as almas, que em muitos terreiros são vistas como pretos-velhos.

A gira continuou com muita cantoria e quase nenhuma outra forma de manifestação. De vez em quando uma das médiuns pegava um pandeiro e girava em torno de seu próprio eixo em uma dança confusa, já vestida de sua saia com 7 fitas coloridas, lembrando muito uma daquelas dançarinas dos sete véus.

Então o Exu deu a permissão para a chegada de Obaluayê na terra, dizendo que ele iria se comunicar e se manifestar. Mas que eles teriam que se recolher até o “roncó” (nome por ele dado), então o pai do dirigente da casa, mais outro trabalhador e o pai-de-santo incorporado no Exu, entraram em uma porta pequena ao lado do Pejí e saíram de lá com o pai do dirigente vestido de Obaluayê, andando empunhando um cajado e entrando na cabaninha que se encontrava no meio do terreiro.

Então as pessoas começaram a clamar por Obaluayê, falando:

– Obaluayê yê! 

Formou-se, ao comando do Exu, uma fila central, para que todos os consulentes pudessem passar com Obaluayê. Todos entrariam na casinha, se ajoelhariam ou deitariam e Obaluayê iria coroar eles com pipocas. É um ritual típico das almas, dar o famoso banho de pipocas para descarrego de energias negativas.

Porém, o médium de Obaluayê, parecia estar meio confuso ou incomodado. Toda hora puxando as palhas da roupa para um lado e para o outro, chegando a pedir para o cambone retirar o saiote de palhas-da-costa depois de quase tropeçar e cair no chão. Aí que a coisa ficou estranha mesmo, o rapaz (pai do dirigente) estava de calça jeans por debaixo da roupa de palha! Incomodo quase nada.

Estava nítido que o rapaz não estava incorporado, pela sua dificuldade, até mesmo depois de todos terem passado, ele se retirou para o “roncó” de novo e saiu rapidamente de lá, sem qualquer manifestação de transe. Não sei se foi uma encenação (o que não é de todo errado, pois existe um teatro religioso sempre sendo repetido nas missas e que é extremamente importante para a prática religiosa) ou se a manifestação era algo de anímica.

Sei que a gira iria continuar e as consultas se dariam com os Exus, com essa nítida situação passei com a moça do pandeiro que lembrava a Odalisca, ela só me deu um passe e disse:

Tem caminho para caminhar não é? 

Hoje analisando isso poderia dizer que ela identificou que eu era médium de alguma casa, porém é algo tão genérico que me perturba. Justamente isso que sempre me fez questionar alguns locais e a suas manifestações, pois a conversa é sempre muito genérica, quase tangenciando a uma leitura fria, muito usada pelos charlatões-de-poste. Sei que esse conhecido de vez em quando participava das giras deles, inclusive incorporando e dando consulta. Isso já demonstra que havia falta de seriedade, pois se nos comprometemos com uma Casa é só nela que devemos ficar. Enfim, o rapaz se afastou de toda convivência que tínhamos e não sei que fim levou esse terreiro. Cheguei a passar pela região algumas vezes de automóvel, mas sempre vi a porta fechada. Desde a minha visita, não havia placas sinalizadoras de que ali era um terreiro, então não há como saber se ainda funcionava o local.

Naquele dia fui embora de metrô, elucubrando como a leitura havia sido fria e como não havia sentido emoção alguma, apesar das muitas canções que costumeiramente me arrepiam até a alma.

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