No texto anterior vimos que o Japão, que tinha como religião natural o Xintoísmo, adicionou o Budismo no século VI. O Xintoísmo, uma religião animista que cultuava a natureza, considerava o imperador um descendente da deusa sol Amaterasu Omikami e os habitantes do arquipélago, fruto da união do casal divino Izanagui e Izanami, que desceu do céu e gerou as ilhas nipônicas. Esse sentimento de herança dos deuses permeia o povo japonês até os dias de hoje que primam pela excelência em tudo que fazem.

O Cristianismo, fruto do trabalho missionário de portugueses e espanhóis, chegou no Japão em 1549 pelo padre jesuíta espanhol Francisco Xavier. Apesar de realizar muitas conversões no começo, cerca de 30 mil no primeiro século, a prática cristã foi proibida em 1639 pelo governo japonês que temia a perda do seu poder. Para os curiosos de plantão, por volta de 1980, um seriado de TV norte-americano intitulado Shogun, procurou retratar os conflitos resultantes do choque cultural e religioso entre ocidente e oriente.

Ora, se considerarmos que o Cristianismo pregava a existência de um messias e que todos os outros seres humanos não eram herdeiros divinos, o confronto com o Xintoísmo e o Budismo foi imediato. Uma vez proibida sua prática no período Tokugawa, os cristãos restantes foram obrigados a se converterem ao Budismo sendo que alguns mantiveram suas atividades cristãs na clandestinidade. A esta altura é importante lembrar que o Confucionismo e o Taoísmo influenciavam a também vida religiosa e os aspectos econômicos do povo japonês.

Somente em janeiro de 1868, assume o trono japonês o imperador Meiji que inicia uma série de reformulações políticas e sociais no arquipélago e ficou conhecida como “Restauração Meiji”. A Era Meiji (1868-1912) foi marcada pela obediência incondicional ao imperador, visto como soberano absoluto e pela abertura dos portos nipônicos para o comércio com outros países. Esse é considerado um período de ocidentalização do Japão, que absorve não somente tecnologia (máquinas e armamentos) mas principalmente cultura, costumes e hábitos ocidentais. O filme O Ultimo Samurai procura retratar, de forma hollywoodiana, o conflito entre a casta dos samurais frente ao avanço da modernização imposta pelo imperador, que promove a construção de ferrovias e o uso de armamentos pelo seu exército.

A abertura do Japão para uma política de boa vontade com os países do ocidente, considerava então a possibilidade de um retorno do Cristianismo como religião praticada pelos habitantes, que seria somado às outras religiões já estabelecidas. As mudanças sociais provocadas pela entrada da cultura e costumes ocidentais foram imensas implicando na transformação de uma economia essencialmente agrária (feudalismo) para se tornar capitalista. A vida urbana transformou artesãos e camponeses em operários que não se adaptando a nova rotina e jornada de trabalho passavam a viver de forma marginal na capital Tokyo. Em torno de 1868, uma primeira remessa de emigrantes toma o rumo do Havaí para trabalhar naquele pais e posteriormente para outros do ocidente, destes, o Brasil viria a ser o país que mais recebeu japoneses em todo o mundo.

A vida religiosa dos japoneses que até então se resumia na prática de rituais xintoístas e budistas, passa a incorporar o Cristianismo e as “seitas protestantes”. O sincretismo sempre tão arraigado na cultura e religião japonesas, agora tem uma nova combinação. Porém, os primeiros choques culturais se iniciaram juntamente com a orientação sincrética na vida religiosa, que propiciou o surgimento das “novas religiões”. Essas novas práticas, hora tempestuosas, ora inovadoras, surgem como uma fuga da realidade sofrida da época e ao mesmo tempo uma crença e apelo por uma intervenção divina.

Nos próximos textos conheceremos um pouco mais do surgimento destas Novas Religiões Japonesas, as inovações propostas e como chegaram no Brasil, entre elas, as mais conhecidas: Oomoto, Seicho-No-Ie, Igreja Messiânica Mundial Soka Gakkay e Tenrikyo.