Dentro dos candomblés e de alguns cultos de nação é comum ouvir falar sobre Oxaguian, Oxalufan, Xapanã, Obaluayê, Omulu, Logun Ede, Xango Caô, Xango Agodô, Oxum Apará, etc. Porém, dentro da Umbanda isso não faz muito sentido.

Dentro de outras religiões que cultuam Orixás, esse tipo de qualificação se dá o nome de Qualidade do Orixá. Uma forma de pormenorizar o que cada irradiação divina faz. Claro que na maioria desses cultos e religiões, a visão que se tem do Orixá é de divindade, uma individuação de um poder ou poderes.

Na Umbanda, a visão de Orixá é diferente, mas acabou se contaminando com a mistura entre os cultos e o ingresso de ex-candomblecistas dentro do culto de Umbanda. Isso não é errado, mas um movimento natural de sincretismo e de miscigenação de cultos, a que toda religião está submetida.

Neste texto não estamos querendo apontar quem está certo ou errado, só queremos demonstrar as diferenças entre as qualidades e os cruzamentos (que é o termo usado na Umbanda) dos Orixás em si.

Orixás: Energia ou Indivíduo

Dentro da concepção da Umbanda a palavra Orixá é usada em duas ocasiões:

  1. Como uma irradiação divina.
  2. Como um sinônimo para espírito evoluído.

Começando pelo segundo entendimento, um Orixá pode ser um espírito de alta hierarquia, que atingiu um grau de elevação moral e intelectual tamanho que pode ser confundido com uma irradiação divina. A esses dão se os nomes de Orixás Intermediários ou Intermediadores, também conhecidos como falangeiros. Caso de: Ogum Beira-Mar, Ogum Nagô, Orixá Mallet, etc.

Também pode ser associado aos falangeiros primordiais que dão nome as falanges, como Tranca-Ruas, por exemplo, como diz no ponto:

“Seu Tranca-Ruas é um Orixá
Seu Tranca-Ruas é um Orixá
Na linha de Umbanda ele vem trabalhar
Na linha de Umbanda ele vem descarregar.”

Já conforme o entendimento como irradiação divina podemos considerar que seria como uma divindade ou uma individualização dos domínios emanados por Deus Inefável, o que alguns chamam de forças da natureza.

Claro que não é bem assim que as coisas se processam, conforme a gente já comentou em nosso artigo Deuses, Orixás, Santos e outras Divindades, pois o Umbandista e outros cultuadores tendem a achar que tudo se explica pela Umbanda ou pelos Orixás, mesmo que um chinês nunca tenha ouvido falar sobre esse termo na vida.

Então, vamos considerar que as irradiações que chamamos de Orixás são emanações naturais acessíveis por diversas entidades e que por meio desta processam os efeitos e fenômenos mágicos, religiosos e, porque não, naturais.

Contudo, no nosso Universo, tudo se conjuga, tudo se aproxima, tudo se mescla. Um átomo de um elemento ao encontrar outro par do mesmo elemento ou de um elemento distinto, se torna uma molécula de um novo elemento, que conjugado com outros se tornam ainda mais elementos distintos, assim quase infinitamente nessa dança cósmica de atração e repulsão.

Da mesma forma funcionam as irradiações divinas, quando emanadas puramente, podemos considerar ela apenas um tipo de emanação, como por exemplo a energia da fé. Contudo se essa energia se entrecruza, ou em outras palavras, se mistura com a energia da Demanda, ela se tornará uma terceira força, que será da fé+demanda.

Usando da linguagem de terreiro, podemos dizer que é um cruzamento da Força da Fé e a Força da Demanda, em seus domínios, resultando em uma terceira energia diferente, dos Guerreiros da Fé. Então, com a figura de linguagem emprestada dos nomes dos Orixás, quando Oxalá se conjuga com Ogum, encontramos então o chamado Oxaguiã ou Oxaguian. Dentro do entendimento da Umbanda Tradicional.

Vamos a mais um exemplo, como a de Iansã e Oxum, que irá resultar em Oxum Apará ou Opará; Oxalá (Obatalá) + Omulu, que se tornaria Oxalufan, assim por diante.

Só que esses termos não fazem o menor sentido dentro da Umbanda, e por isso que usamos o cruzamento como um denominador ou qualificador. Então uma entidade que traga força de Oxalá e de Ogum é um Soldado da Fé, um Caboclo de Ogum cruzado com Oxalá; como por exemplo Ogum Matinata.

O Ogum Beira-Mar é um Ogum que traz a força de Ogum e também de Iemanjá, ainda entrecruzando por vezes com Omulu. Desta forma é um Caboclo ou Falangeiro de Ogum, cruzado com Iemanjá e Omulu, tendo acesso aos domínios desses três orixás, direcionando-se sempre pelo primeiro, ou seja, seu modus operandi será de um caboclo de Ogum, dentro dos domínios das Águas (emoções) e também da Transmutação e Morte (Omulu).

Estou tentando deixar o mais didático possível esse texto, então já espero represálias pelo mesmo, porém o que importa é se fazer entendido.

A Coroa do Médium e os Orixás

Seguindo esta lógica podemos deixar bem claro que as coroas mediúnicas irradiadas pelos Orixás, funcionam exatamente assim: duas energias que se conjugam, se complementam e se opõe o tempo todo em busca de um equilíbrio.

Orixá de Frente te dará o direcionamento da sua vida nos aspectos mais racionais e de comportamento, será como você agirá e muitas vezes também demonstrará o que você precisa aprender (e evitar) nesta encarnação.

Orixá de Juntó te dará o direcionamento emocional, contrabalanceando as forças do orixá de frente, muitas vezes agindo como uma sombra dominadora em nossa vida.

Daí que surgem as duplas, conforme as necessidades individuais de cada médium. Dentro da Umbanda os Orixás que “tomam” a coroa são: Oxalá, Ogum, Iansã, Iemanjá, Oxóssi, Xangô, Oxum, Omulu e Nanã.

Dentro da Umbanda não existem outros tipos de Orixás na coroa, devido a sua interpretação. Desta forma alguém com Logun Ede na coroa, terá de fato Oxum e Oxóssi ou Oxóssi e Oxum.

Conseguem compreender o raciocínio? Pode parecer meio etéreo a princípio, mas comece analisando as pessoas e verá que esse conjunto de Orixás já compreende todo o espectro emocional do ser humano e já é mais que o suficiente para “encontrar” os direcionamentos das vidas daqueles que seguem por esse caminho.

Ser um filho de Iemanjá e Ogum, implica em ter Emoções mais maternas e também direcionamentos mais precisos. Porém, pode ser polarizado negativamente, para ser apegada demais, até mesmo vingativa, sabendo que pode ferir de forma emocional e racional (frio e calculista), aqueles que pretendem ferir. Tudo é polaridade!


*Imagem da Vitrine de autoria de Dalton Muniz