Em minhas férias fui até Pernambuco para desfrutar um pouco das paradisíacas paisagens de nosso grande país. Pensando em descansar e conhecer um local que até então só ouvira falar, não estava muito preocupado com a espiritualidade, religião e suas repercussões.

Contudo, não dá para fugir do assunto quando o mesmo lhe é colocado como uma tarefa. Tá no sangue, tá na alma e parece que cada canto que eu vou, algo me chama a atenção para fazer uma comparação com os temas religiões, principalmente com a Umbanda, que é minha religião professada.

Em meio a esse e outros pensamentos, ainda influenciado pelas mídias digitais, tive contato com diversos “influenciadores da macumba” sempre a exaltar a origem da Umbanda como algo criado pelo médium fluminense Zélio Fernandino de Morais. Por outro lado, também me chegaram várias postagens exaltando a cultura do candomblé de origem Nagô dentro das práticas Umbandistas, trazendo uma Africanidade e um legado à mesma.

Outrossim, como sabem eu não compartilho dessas opiniões, tendo uma imagem da formação da Umbanda como algo muito mais complexo do que a simplicidade de uma revelação a uma só pessoa ou a retomada de práticas – de outro formato dado – para as práticas já tidas na áfrica, agora em solo brasileiro.

Isso, não sai da minha cabeça e tenho que assumir que até mesmo fico um pouco perplexo com a facilidade que as pessoas tem de aceitar “verdades absolutas” e se dizerem espiritualistas ao mesmo tempo. O que posso deixar aqui legado é que eu tive um insight incrível analisando a cultura do povo pernambucano, seus jeitos e trejeitos, sua forma de falar, seu sotaque, suas gírias, seus coloquialismos e tudo mais.

Se dentro de um só País – de proporções continentais, mas ainda assim um só país – temos uma cultura tão diversa dessas, o que dizer de um continente inteiro diferente entre si e abarrotado de culturas, tribos, línguas, povos distintos e com grande passado ancestral?

Por isso mesmo, analisando sem paixões a Umbanda, podemos perceber que alguns temas – tão fixados e propagados, como uma lavagem cerebral – caem por terra. Para isso basta ter um pouco de senso crítico!

Podemos partir de uma premissa que as religiões espiritualistas – e a Umbanda incluída nesta – não tem verdades absolutas e não se prendem a ela, pois compreendem que a realidade é vista em muitas dimensões, relativas a própria realidade pessoal de cada indivíduo.

Desta forma, se um indivíduo pode mudar suas opiniões constantemente e sempre estar angariando mais cultura, informação e sabedoria, como podemos dizer que no astral não é o mesmo? Além disto, há a defesa histórica, que alguns propagam, pois existem “FATOS” sobre essa fundação, sendo que a história está a todo momento se retratando e se alterando, com novas evidências a serem analisadas.

Allan Kardec, codificador do Espiritismo, dizia que o processo de investigação deve ser constante. Não é porque as perguntas contidas na codificação haviam sido respondidas que deveria-se parar com a investigação. Ainda dizia mais, que se a ciência – com sentido de conhecimento – conseguisse mudar o que ali estava, que ficássemos com a ciência, deixando bem claro que a mudança faz parte dos paradigmas espiritualistas.

Uma das afirmações defendidas pelos conhecedores e influencers de Umbanda é a da sua ancestralidade em terras africanas. Dito é que a Umbanda é uma religião afro-brasileira derivada do Candomblé, sem a menor preocupação em explicar que o Candomblé não é uma religião centralizada e que possuem diversas nações e raízes, divergentes entre si e que se alicerçam nas culturas formadoras da mesma: Ketu, Nagô, Jejê, Fon, Bantu, Angola, Congo, etc.

Afirmar que a Umbanda é afro-brasileira é limitar a importância da incorporação de outras culturas dentro da formação da religiosidade e, também, do próprio povo brasileiro. Como amálgamas bem coesos de práticas diversas, que encontravam sinergia, podemos navegar da África para a América pré-colonização.

Ainda assim, a influência da colônia é sentida não só na cultura portuguesa católica, mas principalmente nas crenças populares. A religião na visão popular, toma outra forma, outra conotação que não a canônica de Roma. Além disto, podemos explorar a África com abrangência pela multicultura lá presente, reparando que a maior parte da influência africana foi ressignificada em terras brasileiras, vindo a se tornar toda uma nova cultura, com ascendência africana, mas agora com características próprias.

Grande parte disto é graças a capacidade de incorporação e assimilação de culturas diversas que os povos de origem Banto, possuíam. Conseguiam, de maneira antropofágica, colocar as religiões exteriores dentro do seu contexto cultural.

Da mesma forma vemos isso na Umbanda, sendo influenciada em muito pela cultura dos povos de Angola e do Congo, tendo poucas influências – comparativamente – dos povos da Nigéria e do Benin, como é o costumeiro – e equivocado – de se assumir e afirmar, precocemente. Percebemos muitos disto, pelo meio de tocar atabaques por exemplo – que se for seguir a ideia original da formação da Umbanda por Zélio, não fazia parte do ritual original – em que os povos de tradição Nagô e Fon, acabam tocando os mesmos com “baquetas” e no caso da cultura Banto com as próprias mãos, similar ao que ocorre na Umbanda.

Ainda não iremos comparar com as questões fundamentadas por Zélio Fernandino de Morais. Para isso retornarei ao tema mais a frente neste texto.

Grande parte da ritualística de Umbanda também se alicerça com a comunhão com os espíritos dos ancestrais como movimentadores da vida além-túmulo, que trazem benesses e curas para os povos aqui ainda encarnados.

Para exemplificar a comunhão de ideias que a Umbanda possui, podemos usar da mais polêmica das entidades, o Exu.

O Exu, como orixá é cultuado em religiões de tradição Yorubá, mas um estrangeiro para as religiões de cultura Banto. Os povos de Angola, Congo e imediações tinham outros conceitos sobre essas entidades que atuavam no mesmo espectro e nos mesmos domínios. É correto afirmar que existem ao menos quatro entidades distintas que fazem parte ou todo o papel de Exu para os Bantos.

Desta forma, podemos assumir que as figuras são opostas, diferentes e que não são o mesmo tipo de esteriótipo ou arquétipo como nos forçam a aceitar. Contudo a coisa fica ainda mais bagunçada – para alguns fica evidente, quem tem olhos de ver – quando o nome exu é associada as entidades espirituais atuantes da Quimbanda da Umbanda.

Quando disto, podemos ver que a maioria da entidades que se manifestam sob o aspecto e arquétipo de exu, como guia-espiritual, tem claros trejeitos e roupagens europeias, apenas usando do nome do Orixá de cultura Nagô. Ainda assim, muitos falam de temáticas católicas, astrológicas, cabalistas, numerológicas e alquímicas. Grande parte de conhecimento que tem origem ou no Oriente Médio ou na Europa, ou que de certa forma, era trabalhado na Europa. Além de suas roupas, como cartolas, capas, espadas e outros.

Pombagira como sua contraparte feminina também se apresenta com elegantes vestidos de bailes de salões europeus, bebendo de espumantes – bebida européia – e se mostrando sempre como uma dama lindíssima, adornada de tesouros e joias que podem levar o homem a perdição com sua fala. Oras, esse mito, essa lenda, essa figura é trabalhada totalmente dentro do aspecto europeu.

Isso não é embranquecimento da religião, mas uma tradução simbólica da comunhão das culturas e dos pensamentos dentro das correntes de Umbanda. Ontem, o colonizador se torna hoje o colonizado simbolicamente, a partir do momento que dentro da Umbanda – casa de Caboclo e Preto-Velho – Exu é convidado. Em outras palavras, antes o Europeu, dominando os povos ancestrais da terra brasileira e os nativos da África, hoje devem pedir permissão de trabalho e estão subjugados a hierarquia e poder destes Caboclos e Pretos-Velhos.

Este tipo de pensamento é fruto de uma cultura de assimilação, transmutação e ressignficação dos mitos. Se pensarmos em um contexto puramente tradicional, qualquer mudança seria visto como “heresia”. Lembrando sempre que a manifestação de Caboclos e Pretos-Velhos são emblemáticas.

Uma “miscigenação” entre índios e europeus resultou nos Caboclos. O Preto-Velho, por outro lado, é fruto do colonialismo e da vida de trabalhos forçados, extraído de sua terra, para aqui no Brasil assumir um nome brasileiro ou na maioria das vezes, nascer no Brasil, sendo fruto de uma ancestralidade que era original da África. Hoje o Preto-Velho, assume a sua roupagem, como o símbolo da sabedoria, professando por muitas vezes uma crença católica popular, entremeada com suas práticas adquiridas da ancestralidade africana e mantém unidas essas duas vertentes que querem sempre separar.

Essa mistura a princípio caótica é a essência do povo brasileiro em união com suas muitas influências culturais. Vejam que o Caboclo poderia ser negado em tribos indígenas por não ser exatamente nativo e não ser também europeu – o que resultaria em perseguição e preconceito do colonizador. O Preto-Velho, negando simbolicamente a sua pertença ancestral, também se tornaria pária. Ambos não teriam uma origem ou um povo para serem identificados, sempre estando a margem. Da mesma forma que a maioria do povo brasileiro, ou seja, somos um povo sem passado, mas que através da mescla cultural pode criar todo um novo futuro de tolerância, compreensão e entendimento.

Podemos refutar também a ancestralidade – puramente africana – da Umbanda vendo que em seu mito fundador, o grande anunciador da religião fora um Caboclo, de origens anteriores (e ainda presentes em suas manifestações espirituais e roupagens) de vestes clericais jesuítas e em um primeiro trabalho já a presença dos pretos-velhos para trazer uma fundamentação a religião.

Mas defender o purismo encontrado em tempos antigos na TENSP (Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade) é aproveitar-se de uma validação “frágil” visto que muitos que o fazem, nunca nem sequer tiveram contato com o que era praticado dentro da Umbanda de Zélio.

De qualquer forma, ainda posso afirmar que a Umbanda do Zélio é apenas uma das muitas que surgiram e de certa forma é uma comprovação que o método do CUEE (Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos) funcionou. Pois, dentro da minha concepção, análise e vivência, a Umbanda surgiu em diversos pontos do país, com diferenças na forma dos cultos, mas com uma base sólida que confirma o CUEE.

Eu digo isto por ter sido feito em uma Casa em que o trabalho tem mais de 70 anos e que já é a terceira casa fundada na tradição. Se formos analisar isso friamente, a casa fundadora, que deu origem a casa que viria a dar origem a casa em que trabalho, é anterior a 1908. Além de que as pessoas lá não tinham internet ou meios rápidos de terem informações sobre a Umbanda de Zélio, lembrando que as práticas dele só se popularizaram mesmo – como dizem por aí – após o encontro com uma sumidade da Umbanda, que evitarei falar o nome, mas por volta da década de 1970.

O que quero dizer com tudo isto é para terem cuidado com o radicalismo e analisarem as coisas de uma perspectiva mais abrangente. A Umbanda é uma religião BRASILEIRA e uma religião de integração. Procurar ou postular um purismo, seja ele nativo, europeu ou africano (como se a África fosse um só povo) é ingênuo no mínimo e leviano no ponto máximo.

A Umbanda não é derivação de uma religião, mas o resultado de uma realidade diferente, novas e que é ímpar no mundo todo, formada pela multipluraridade cultural brasileira para atender os anseios deste povo carente de uma origem. Podemos afirmar então que a origem da Umbanda é a INTEGRAÇÃO.