Linguajar Empolado

Estava outro dia lendo pela segunda vez um livro espírita – Aconteceu na Casa Espírita¹ – para uma pauta de estudos e me deparei novamente com algo familiar, mas que sempre me incomodou muito: O linguajar empolado da oratória espírita.

Posso aqui começar a incorrer no preconceito que me é próprio sobre esse linguajar, porém fico imaginando qual é o intuito de um espírito se manifestar de uma forma que a maioria não consegue compreender? Não seria mais fácil fazer como Jesus Cristo e explicar as coisas com questões e com o jeito das pessoas da época?

As parábolas de Jesus, podem nos parecem complexas, pois perdemos o meio de raciocínio que era considerado comum da época em que esteve na terra. Porém quem estuda os evangelhos sabe que dentro das suas parábolas ele sempre usava figuras que eram familiares a todos, desde o trabalho com a pescaria ao trabalho de pastor. Jesus ensinava coisas muito complexas fazendo comparações com coisas do cotidiano do povo hebreu de dois mil anos.

Justamente por isso não consigo compreender o porquê os oradores espíritas e até mesmo a literatura espírita, quando é dada a voz a um Espírito, tem que ser escrita de forma tão empolada e até mesmo elitista. Não sei se é uma forma que tomou conta do meio espírita ou se o fazem para passar uma credibilidade de intelectualidade, mas de qualquer maneira eu sinto que isso mais afasta e cria confusão do que ajuda.

Outro dia conversando com uma amiga, ela me citou que não conseguia entender o que estava escrito no Livro dos Médiuns, chegando a duvidar de suas capacidades intelectuais. Perguntei a ela, qual era a tradução que ela estava usando e por fim ela me disse que era da editora LAKE. Esta é uma das mais difíceis traduções, em paralelo também a tradução de J. Herculano Pires se não me engano, para a FEB. Eu recomendei a ela a tradução da editora PETIT que tem uma formatação mais próxima da nossa linguagem contemporânea e ela me disse que “AGORA ESTAVA ENTENDENDO”.

Vejam, o problema não é o significado, mas como aquilo é passado. Um gênio matemático vai ser genial em matemática, porém se ele tiver só livros em alemão em mãos e for um chileno, não sei se ele irá conseguir extrair ao máximo se ele não entender a língua ou o formato da linguagem que ali está expressa. Isso também gera afastamentos das pessoas quando se diz respeito a literatura, como acontece em nosso Ensino Médio, que os estudantes fogem de obras de Machado de Assis e Eça de Queiroz pois sua linguagem é muito “requintada” para “nóis de hoje mano!”.  Aí o que fazemos? Abandonamos a obra e essas pessoas que se virem? Não! Devemos adaptar.

No sistema educacional britânico as crianças aprendem com Harry Potter e depois com Senhor dos Anéis (que tem uma linguagem extremamente complexa), porém elas já estão mais aptas, pois aprenderam a ler com o fácil Harry Potter. O mesmo se dá, creio eu, para literatura espírita e também para a oratória. Até chego a pensar que as pessoas escrevem desse jeito, sem nem saber de fato o que estão escrevendo, apenas para validar suas palavras como “elevadas” e “evoluídas”, mas se pararmos para analisar gramática, semântica e construções de orações, vamos perceber que há certas distorções como um Espírito que fala como se tivesse nascido no século XIX usando termos que não existiam, inclusive gírias, do século XXI. No mínimo é anacrônico e escapa totalmente da erudição pretendida pela figura do Espírito Ilustre.

Quando começo a ouvir o Divaldo Franco a falar de forma empolada, já mudo na hora de canal, som, faixa, etc. Não dá para compreender metade do que ele diz, mesmo levando em consideração minha formação em ensino superior e mais de 2 ou 3 centenas de livros lidos de diversas áreas. Imagina então aquela pessoa simples, que não teve acesso a cultura e educação que precisa aprender algumas coisas sobre espiritualidade, como ela se sentirá ao ouvir ele falar em “chavões” e “de forma erudita”? Na verdade é uma forma muito “velada” de ser preconceituoso e de nivelar socialmente e culturalmente uma religião. Totalmente antagônico com a proposta do próprio espiritismo e também com o discurso espírita.

Por isso que surgiu a Umbanda, não foi? Para dar voz aos espíritos que não tinham voz? Falar aos simples de coração? Porém, infelizmente isso tomou rumos indesejados. De um lado, as entidades de Umbanda sendo taxadas de atrasadas, pois não possuíam o mesmo discurso empolado.  De outro lado por alguns “umbandistas” começarem a usar esses termos empolados para dar um “peso” na comunicação de seus Pretos-Velhos Magos.

De que adianta tudo isso? Posso falar até em Aramaico, quando incorporado (não posso, mas estou supondo que alguém possa), mas se não me fizer ser entendido, do que valeu? Se o consulente não entende o que deve entender, se o leitor não compreende o que leu, qual é o mérito?

Sei que já fui chamado de “simplista” e também de “escrita-pobre”, porém isso nunca me incomodou, pois recebo diversas mensagens de leitores que simplesmente dizem que compreenderam o que eu escrevi e que o método simples de escrita os auxiliou a expandir seus horizontes após terem segurança sobre o que estavam estudando.

Eu, particularmente, acredito que perdemos a essência da mensagem espírita (e umbandista) e precisamos de um retorno imediato a essa origem moral e a simplicidade. Também devemos nos  bater de frente com nossos preconceitos (e eu estou tentando isso, com esse texto) para compreender o que nos prende e o que está influenciando na mediunidade de escrita ou oratória.

Seja como for, deixo aqui esta reflexão, esperando que o aprendizado traga mais clareza sobre o que lemos, para que assim possamos praticar a leitura, pois ao que me parece, ninguém entende nada do que tá escrito, mas finge que entende simplesmente para ter um “título” de espírita ou umbandista.


¹ O Livro “Aconteceu na Casa Espírita” é um interessante livro que relata a invasão de uma Casa Espírita por espíritos obsessores, porém recomendo cautela na sua leitura, pois me parece mais uma criação literária sem fundo verídico, apenas para explanar de forma bem resumida questões da doutrina espírita abrasileirada, do que realmente uma comunicação espiritual superior. De qualquer forma, vale a leitura e as advertências contidas nas páginas do livro.

Terapeuta Natural (Naturopata) e futuro Acupunturista, Idealizador do blog Perdido em Pensamentos e pretenso escritor. Geminiano com ascendente em Leão e lua em Touro, acredita que toda forma de estudo é importante. Médium umbandista e eterno questionador, tem interesses em temas como: Espiritualidade, Espiritismo, Umbanda, Magia e Terapias Naturais. É apaixonado pela cidade de São Paulo, onde tudo é possível. Colecionador de livros, principalmente sobre Umbanda (quanto mais antigo melhor).

Douglas Rainho

Terapeuta Natural (Naturopata) e futuro Acupunturista, Idealizador do blog Perdido em Pensamentos e pretenso escritor. Geminiano com ascendente em Leão e lua em Touro, acredita que toda forma de estudo é importante. Médium umbandista e eterno questionador, tem interesses em temas como: Espiritualidade, Espiritismo, Umbanda, Magia e Terapias Naturais. É apaixonado pela cidade de São Paulo, onde tudo é possível. Colecionador de livros, principalmente sobre Umbanda (quanto mais antigo melhor).

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  • Alexandre Scaraboto

    Realmente gostei muito da reflexão. Não entendo a necessidade desta dificuldade em nas palavras difíceis, tomo como exemplo eu mesmo em 10 anos de câmara de passe kardecista, de tanto ler e conviver no meio, estava já com esse linguajar, nas devidas proporções, embutido nos meus atendimento, hoje, no meio umbandista, do preto velho que me permite trabalhar com ele, escuto suas palavras simples, e dizendo aos consulentes, “quando for conversar com Deus, converse como estivesse falando com qualquer um no seu dia dia, é o que sai do seu coração e não da boca que alcança Deus”.. eu acredito que tem hora e lugar para cada “linguajar”