Carta Magna de Umbanda, Comentada.

86b083_baf346d8606e4c1d91c9c8b996a04569[1]Então, foi apresentado na Assembléia Legislativa de São Paulo a Carta Magna de Umbanda, atrelando os nome das representatividades abaixo:

  • Federação Umbandista do Grande ABC – Babalaô Ronaldo Antonio Linares
  • União de Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil – Jamil Rachid (Pai Jamil)
  • Federação de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo – Carlos Roberto Salun (Pai Salun)
  • Organização Federativa de Umbanda e Candomblé do Brasil – Primado do Brasil – Presidente Maria Aparecida Naléssio
  • Supremo Órgão de Umbanda e Candomblé dos Filhos de Tupinambá do Estado de São Paulo – Reinaldo dos Santos Tupinambá (Pai Reinaldo)
  • Associação Beneficente Paulista de Umbanda – Edson Izidro dos Anjos (Pai Edson)
  • Associação de Umbanda Espiritualista do Estado de São Paulo – Sandra Santos
  • União Regional Umbandista da Zona Oeste Grande São Paulo – Cláudio Franco de Lima (Pai Cláudio)
  • Federação de Umbanda e Cultos Afro-Brasileiros de Diadema – Cássio Lopes Ribeiro (Pai Cássio)
  • Federação de Resistência da Cultura Afro-Brasileira – Waldir Persona (Pai Valdir)
  • União Municipal Umbandista de Guarulhos – José Juvenal dos Santos (Ogan Juvenal)
  • Associação Brasileira dos Umbandistas e Candomblecistas – Marco Campos
  • Dr. Hédio Silva Jr., Advogado, Mestre em Direito Processual Penal e Doutor em Direito Constitucional pela PUC-SP,Consultor Jurídico da FUG”ABC”.
  • Dra. Juliana Ogawa, membro da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da OAB-SP – Assessora Jurídica da AUEESP e do Primado do Brasil

A proposta é que a religião de Umbanda seja levada mais a sério, com uma apresentação formal de uma carta fundamento seus princípios básicos e os parâmetros os quais deve seguir a religião para ser chamada de Umbanda. Seus co-autores alegam que isso é para trazer a religião de  Umbanda a luz, formalmente sendo aceita e desfazendo as dúvidas e distorções que ocorreram com o tempo com a inclusão de diversos elementos que não eram nativos da Umbanda em sua origem.

Essa carta está dividindo opiniões, algumas pessoas que antes a aprovavam hoje a negam e o inverso também ocorreu. Eu tentarei dar nesse pequeno espaço algumas considerações pontuais, pautadas dentro do meu entendimento, em cada um dos itens apresentados na carta. Ao final farei um parágrafo colocando ponderações mais genéricas.

Olhe as coisas sem preconceitos, apenas de forma crítica e serena. Estamos aqui para o diálogo.


CARTA MAGNA DE UMBANDA

1. Umbanda é uma religião espiritualista de doutrina afro-indígena-euro-brasileira.

Concordo com esse parágrafo e acho interessante ele vir em primeiro. Importante guardar ele para as colocações que virão posteriormente. Com certeza a Umbanda é uma religião formada do mesmo “caldo cultural” que é formado o povo brasileiro. Sendo sempre influenciado por diversas culturas, em sua história, a  Umbanda reflete exatamente o que o brasileiro é! Um povo miscigenado e que sabe ser universalista em várias situações, porém sem conhecimento de sua origem. Mas isso não é de fato ruim, isso é algo interessante. 

2 . É uma religião monoteísta, que crê na existência de um Deus único, inteligência suprema,  causa primária de todas as coisas, eterno onipotente, onipresente, soberanamente bom e justo.

Com esse parágrafo, não há como refutar. É isso mesmo, Deus único e que pode também ser chamado conforme as influências acima citadas de Tupã, nZambi e afins.

3. A Umbanda crê e cultua de forma própria os Orixás Africanos sincretizados com os Santos Católicos, Guias e Mentores Espirituais que, como ministros de Deus, zelam e O auxiliam na realização de Sua obra.

Aqui a coisa começa a ficar estranha, pois no parágrafo UM, assumimos que temos influências multiculturais de origem indígena, europeia e africana. Os Orixás Africanos estariam na influência africana, porém a influência africana primordial dentro da Umbanda advém da cultura Bantu, na região do Congo e de Angola. Nessa região não se eram cultuados Orixás e sim Inquices. Olhando pelo lado universalista, podemos dizer que os nomes são usados por conveniência, porém isso já é uma inclusão posterior, vinda dos candomblés de origem Nagô. As sete linhas segundo Zélio (e isso é importante por causa do parágrafo 5) são: Oxalá (Jesus Cristo) – Ogum (São Jorge) – Euxóssi (São Sebastião) – Xangô (São Jerônimo) – Nhã-San (Santa Bárbara) – Almanjar (Virgem Maria) e a Linha de Santos e Almas. 

Veja que sempre há um santo designando as linhas e as tendas que foram fundadas por Zélio. A tenda matriz que é a Nossa Senhora da Piedade e as demais citadas abaixo:

  • Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição (1918);
  • Tenda Espírita Nossa Senhora da Guia (1927);
  • Tenda Espírita São Pedro (1935);
  • Tenda Espírita São Jorge (1935)
  • Tenda Espírita São Jerônimo (1935)
  • Tenda Espírita Oxalá (1939)
  • Tenda Espírita Santa Bárbara (1952)

Veja que com exceção da tenda Espírita Oxalá, nenhuma outra carrega nome de Orixá. Acredito que foi dado o nome Oxalá para essa tenda, pois seria presunção no ponto de vista usar Jesus Cristo, e também para evitar certa confusão ou perseguição religiosa. Isso é apenas achismo meu, mas até que faz certo sentido. 

Então de fato, creio que os nomes dos Orixás são simbólicos apenas para representar as forças de cada linha, porém quem de fato são cultuados são essas forças (naturais) e os santos que elas representam. Os Orixás Africanos, não são cultuados, veja a diferença entre a Iemanjá original africana e a Iemanjá de Umbanda. 

4. A Umbanda crê na reencarnação e na incorporação das entidades espirituais, em vidas sucessivas, no aprimoramento espiritual e aperfeiçoamento do ser humano para conduzi-lo a Deus.

Sem nenhuma argumentação de minha parte, faz sentido e é a premissa da parte espírita que influenciou a Umbanda.

5. O espírito denominado Caboclo das Sete Encruzilhadas, incorporado no médium Zélio Fernandino de Moraes no dia 15 de novembro de 1908, em São Gonçalo das Neves / RJ – data que reconhecemos como sendo o nascimento da Umbanda – anunciou:

“Com os espíritos evoluídos e adiantados aprenderemos;  aos atrasados ensinaremos e a nenhum negaremos uma oportunidade de comunicação”.

Concordo que essa é a data de fundamentação, sistematização e homologação do que se tornou a Umbanda, mas não de sua criação. Pois, ao estudarmos de forma antropológica, vemos os mesmos princípios e entidades que se manifestam na Umbanda já se manifestando em outras religiões, seitas e cultos. A Umbanda a meu ver é uma evolução ou desdobramento natural do Candomblé de Caboclo, que por sua vez é um desdobramento do Candomblé de Almas e Angola. Ainda assim, com muita influência posterior do Espiritismo, Catolicismo Popular e afins. Porém, de fato, concordo que o Caboclo 7 Encruzilhas, foi o responsável por trazer esse sistema de forma correta, organizada e também como o líder. Para que houvesse um crescimento organizado, porém nem assim mesmo resolveu, pois muito foi incorporado, inclusive as neoumbandas que são Candomblés “mais fracos”, se puder usar essa figura de expressão. Africanizaram tanto a Umbanda, que é confuso afirmar que ela tem um passado anterior, com influência africana, porém não só isso. Esqueceram completamente da parte indígena e a parte africana foi deturpada geograficamente, dando aos Yorubás mais poder do que eles realmente tinham, dentro da fundamentação da Umbanda.

6. A Umbanda considera a natureza com tudo que ela encerra como a obra máxima do Criador,  sendo o altar de Deus – o lugar onde se pode com Ele conversar, porquanto, preservar a natureza é obrigação de fé de cada umbandista.

Concordo e por isso convido todos a pararem de fazer oferendas com materiais que não são biodegradáveis, como velas, fitas, plásticos, louças, espelhos e afins. Também convido a pensarem que ecologia é mais do que manter o ambiente, mas manter tudo em equilíbrio, logo fazer oferendas com grande quantidade de comida como vemos por aí nas neoumbandas é agressivo e chega a beirar o desrespeito com todos aqueles que passam fome. Também convido a todos os Umbandistas a fazer como o Pai Ronaldo e preservar um espaço de mata, um rio, uma praia, etc. 

7. A Umbanda é uma religião sincrética fruto da cultura religiosa de três segmentos: branco do elemento europeu, colonizador; negro – escravizado na África para laborar na terra e o indígena que já ocupava esta terra, portanto,  não admite qualquer forma de preconceito, discriminação ou intolerância.

Isso é o que deveria ocorrer, porém não é o que de fato ocorre. Mas está correta em sua manifestação. Não cabe preconceito dentro da Umbanda, porém isso aqui de fato é um item a mais, só para aumentar o número de parágrafos, pois tem algo que vale mais que a Carta Magna que se chama Constituição e lá já diz que todo tipo de discriminação é preconceito! Esse parágrafo deveria ser expandido, para outras questões, como a orientação de gênero, porém, acho que ficaram com medo de tocar nessa cumbuca. 

8. A Umbanda tem liturgia e ritos próprios derivados da diversidade de raças e culturas que a  fundamentam.  São práticas litúrgicas umbandistas:

8.1 – A preparação e formação mediúnica e sacerdotal;
8.2 – O Batismo;
8.3 – O Casamento;
8.4 – Os Ritos Fúnebres.

Concordo com quase tudo menos o parágrafo de formação sacerdotal. Não existem sacerdotes de Umbanda, existem médiuns com função de liderança. Isso, pode parecer banal, mas é bem distinto. Ser Sacerdote implica que alguém lhe passou uma outorga. Por exemplo, todos os Padres Católicos são sacerdotes pois o Papa outorga os Cardeais, que outorgam Bispos que outorgam Padres. Os Papas foram outorgados como tal, pois representam Pedro, que foi outorgado como a pedra principal da Igreja Cristã pelo Próprio Jesus EM VIDA. Logo para que haja sacerdote o Zélio deveria ter sido outorgado em VIDA, ele foi outorgado pelo Espírito, que era um Padre, de orientação cristã com apresentação indígena. Fica confuso de entender isso não? Aceite que não há sacerdotes. Os Dirigentes são escolhidos de forma distinta, são escolhidos pelos espíritos guias e chefes, depois de certo tempo e não imbuídos de tal por cursos e afins. 

9. Constituem símbolos da Umbanda:

9.1 O Hino a Umbanda;
9.2 A Bandeira da Umbanda;
9.3  O Juramento Umbandista.

Eu não faço ideia do que seja o Juramento do Umbandista, até porque por ser Cristã, creio eu que o Juramento máximo é: “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo”.

10. Sendo a Umbanda a manifestação do espírito para a prática da caridade deverá sempre ser exercida sem remuneração, salvaguardada a sustentação financeira da organização religiosa.

Concordo parcialmente! O problema aqui é que deixaram uma salvaguarda, que pode ser explorada de forma a SUSTENTAR o “sacerdote”. Se colocar ele como figura central e importante da religião, logo ele deverá se dedicar integralmente e precisará de uma forma de remuneração. Já sabemos onde isso termina né? Dentro da Umbanda NADA deve ser cobrado na prática da caridade, contudo TODOS os membros de uma casa espiritualista tem a obrigação de ajudar, rateando as despesas da mesma, incluindo os pretensos Sacerdotes, Babalaôs e afins.

11. O adepto da religião de Umbanda deve sempre seguir a ética religiosa e a lei dos homens.

Sempre! Agora explica para eles que os espíritos-guias são mais sábios e já fazem isso. Quem sabe a gente para de ver aberrações por aí mandando trazer maconha pra dentro da Gira ou ir pular o muro do cemitério para pegar terra ou fazer oferenda a meia-noite.

12. Todo irmão umbandista que desejar fazer parte do corpo mediúnico de um Templo deverá prestar o “Juramento Umbandista”.

De novo? Mas qual é esse Juramento? 
“A Umbanda é a manifestação do Espírito para Caridade. Com os espíritos mais evoluídos aprenderemos, aos menos evoluídos ensinaremos mas a nenhum viraremos as costas”? Seria esse? É a máxima cristã já.

13. A Umbanda defende uma sociedade em que todas as religiões sejam igualmente respeitadas, a promoção da tolerância como princípio republicano e a preservação da educação pública laica.

Nada a declarar.

14. A Umbanda será sempre uma casa de portas abertas para todos.

Já não está dentro do preceito da “Umbanda é a manifestação…” ? Mais um parágrafo para aumentar a carta e deixar ela com um número 14, 7×2? Agora eu to divagando mesmo.

Justos e perfeitos, os subscritores desta, a qual estará aberta a adesões, reafirmam o compromisso permanente com o engrandecimento da Umbanda e seus valores magnos.

São Paulo, 13 de novembro de 2015.

Conclusão: A Umbanda não precisa de uma Carta Magna, precisa apenas que as pessoas parem de pensar que são donas dela. Existe uma metodologia que deve ser aplicada, deve ser seguida, deve-se procurar a origem e a tradição. Porém, apesar de alguns dizerem que esse é o propósito da carta, pode-se ver que há muita incongruência na mesma. Como querem buscar a origem se usam termos como SACERDOTE, BABALORIXÁ e afins. Veja que os membros que assinam a carta se colocam como a maior representatividade da  Umbanda, mas no próprio Juramento não é dito que TODOS os Espíritos terão voz? Por que só esses falam então? Quando há algo que vem ao encontro da ideia destes, eles logo dizem que estão fazendo isso para manter a Umbanda uma bagunça. Pera lá! Eu sou o maior defensor da tradicionalidade da Umbanda, porém com inclusões saudáveis, como por exemplo os atabaques.

Veja que os representantes fazem parte de associações que tanto defendem a Umbanda quanto o Candomblé, mas não foi dito, nas linhas da carta, que a Umbanda é uma religião com fundamentação própria? Então por que um mesmo organismo cuida de duas religiões? Não vejo por aí uma mesma organização sendo Católico-Budista, por exemplo.

Tem muita gente que ainda quer lograr com a Umbanda, seja financeiramente ou seja com prestígio. Estão aproveitando a lacuna aberta com o desencarne de uma figura carismática e polêmica para tentar colocar uma nova força. Mas a verdadeira força só é demonstrada no trabalho honesto e desinteressado, através da prática da caridade, auxiliando o próximo sem esperar retribuições. Tenho certeza que é muito mais feito pelo ser humano naquele terreiro de fundo de quintal do que nos desses pais de santo que tem sites, portais e programas de rádio, TV e afins. Devemos nos aprimorar, usar a tecnologia, mas não nos colocar como melhores do que os antigos que não sabem de nada disso e continuam a prezar pelo seu trabalho.

Bom essa é só uma opinião minha, refutem, discutam e exerçam a sua liberdade.

Terapeuta Natural (Naturopata) e futuro Acupunturista, Idealizador do blog Perdido em Pensamentos e pretenso escritor. Geminiano com ascendente em Leão e lua em Touro, acredita que toda forma de estudo é importante. Médium umbandista e eterno questionador, tem interesses em temas como: Espiritualidade, Espiritismo, Umbanda, Magia e Terapias Naturais. É apaixonado pela cidade de São Paulo, onde tudo é possível. Colecionador de livros, principalmente sobre Umbanda (quanto mais antigo melhor).

Douglas Rainho

Terapeuta Natural (Naturopata) e futuro Acupunturista, Idealizador do blog Perdido em Pensamentos e pretenso escritor. Geminiano com ascendente em Leão e lua em Touro, acredita que toda forma de estudo é importante. Médium umbandista e eterno questionador, tem interesses em temas como: Espiritualidade, Espiritismo, Umbanda, Magia e Terapias Naturais. É apaixonado pela cidade de São Paulo, onde tudo é possível. Colecionador de livros, principalmente sobre Umbanda (quanto mais antigo melhor).

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  • Ótimo post e muito oportuno visto que neste tempo que ocorreu o congresso não percebi uma massiva divulgação do mesmo. Perdoe-me se estiver errado neste ponto.
    A iniciativa de ter um documento que possa ter a mesma característica de um credo ou profissão de fé é interessante e evita confusões na sociedade.
    O fato de termos diversas associações no Brasil entendo este tipo de reunião é proveitosa pois trás reflexões. Mas ao mesmo tempo tenho medo do rumo que venha a tomar quando algumas lideranças começam a se impor.
    Não cho que este tipo de reunião pode ter como fim o surgimento de uma liderança única , pois acho que isto estimula muito as vaidades e egos. Quero entender que este tipo de documento não pode ter esta característica, assim espero.
    Mas acho que a intenção da carta ficou vaga em alguns pontos e ainda pode ser melhorada assim como vc destacou no texto.
    Também não concordo que a carta dite uma norma de como um médium pode fazer parte de um corpo mediúnico por conta de um juramento.
    Afinal juramento doque e pra quem se temos um princípio claríssimo sobre como devemos agir ?
    Outro item que ficou no vácuo foi a questão da salvaguarda…ficou vago. Sou da teoria que nem tudo é possível ser gratuito. Mas tudo que se referente a ajuda ao próximo deve ser caritativo, não me recordo de Jesus ter falado que precisava receber algo quando curava as pessoas.
    Quanto à questão do sacerdócio tenho uma opinião divergente, porém seu ponto de vista me fez pensar e estou refletindo, visto que trago comigo o conceito das igrejas reformadas e que diverge da igreja católica.
    Enfim precisamos discutir mais, mais e mais este tema, até pq senti falta de agrupamentos de outros Estados, não ficou claro se alguns que foram citados agrupam terreiros de outros Estados.

    • Parece que nenhum outro estado teve representatividade ou sequer foram consultados. Isso demonstra que de bom interesses o inferno tá cheio. Outra coisa, porque apresentar na Assembléia Legislativa de São Paulo se a Umbanda é algo do País todo? Deveria ter essa representação em Brasília, não acha?

  • Umbandizando

    Bem lembrado ou tb poderia ser apresentado nas Assembleias dos Estados que tivessem participado.

  • Regras são importantes, mas neste caso, não faz sentido ter uma cartilha de “boas maneiras umbandistas”, já que a base da religião está em aprender com os que sabem mais e ensinar aos que sabem menos. A Carta Magna de toda e qualquer crença já foi apresentada há muito tempo, sendo inútil todo esse desprendimento de energia em cima do que qualquer umbandista, independente de estar documentado materialmente ou não, sabe se tratar apenas objeto de involução. A ausência de uma Carta Magna na Umbanda é fundamental para a evolução de seus adeptos. (intuído)

  • bianca

    Douglas, discordo em partes de você! Acho que a Umbanda precisa de uma “carta magna” (não exatamente essa), pois vejo tantos terreiros fazendo coisas erradas e divulgando mentiras, que eu penso que seria bom termos uma doutrina básica!

  • CORRIGIDO E AMPLIADO. FAVOR CONSIDERAR APENAS ESSE COMENTÁRIO.

    Minha opinião ~crítica e serena~ sobre seus comentários. Duas coisas eu vejo aqui: presunção e preconceito oriundos de uma radical e teimosa mania que querer “desafricanizar” a Umbanda, o que na minha opinião seria saudável se não desmerecessem as suas origens africanas, inclusive a nagô/iorubana, que foi a que mais influenciou a religião em seus aspectos rituais, culturais, etc. Dizer que os Orixás “brasileiros” (como se Orixá tivesse nacionalidade) são sincretizados com os orixás africanos “apenas por uma questão universalista” não tem nada de Universalista, mas de sectário por completo. O tom dessa opinião e dessa “doutrina” é completamente oposta ao que se chama de “universalismo”. Universalismo é o caminho da convergência, da essência de todas as verdades. A de cada um mesmo! Porque a verdade é uma só e exatamente por isso é que ninguém a detêm. Não existem orixás brasileiros, nem orixás africanos. O próprio termo “orixá” é designado para nomear DIVINDADES, qualidades de Deus, que são cultuadas, nomeadas e “codificadas” em MUITAS visões, como a brasileira, a africana, a hindu, a chinesa, etc. Com muito respeito, meu irmão, vejo nesse comentário o mesmo caminho do fundamentalismo evangélico que diz que adora Deus “da forma correta”, em oposição aos católicos e demais religiosos de crença “inferior”, “deturpada”, etc. E repito, não vejo nada de universalista nisso. Triste mesmo! Respeite a Umbanda que seu irmão pratica!
    Quanto ao comentário “Então por que um mesmo organismo cuida de duas religiões? Não vejo por aí uma mesma organização sendo Católico-Budista, por exemplo.” É simples: a Umbanda, o Candomblé, o Catimbó, ou todas as outras religiões que vocês amem ou detestem (mesmo sendo “universalistas”), vêm e se encontram em um mesmo contexto social de opressão e resistência. Mesmo olhando para dentro da própria Umbanda pode se constatar isso: tantos os índios quanto os africanos foram oprimidos e são até hoje em razão de religião, etnia e raça.

    • Caro Caique,

      Não há menosprezo algum pela condição e influência Iorubá, porém temos que ser íntegros quanto a historicidade das coisas. Hoje temos a mania de reduzir tudo que vem da África a questões da cultura Nagô, porém a África é imensa e tem diversas culturas muito diferentes. Concordo que os Candomblés possuem variações de nação e que a mais difundida é de Ketu, que traz muito da cultura Nagô, porém devemos nos lembrar que a maior presença de povos africanos se deu através da cultura Bantu (Angola e Congo) e que esses nem sequer cultuavam Orixás, para eles eram deuses estrangeiros.

      A maioria das palavras faladas dentro do terreiro pelos PV por exemplo são Bantu, Kimbundo ou Kingongo. Essa influência Iorubá só se deu após a diáspora dos barracões e roças de Candomblé para a Umbanda. Vamos contextualizar, o Candomblé existe praticamente desde que os negros começaram a desembarcar nos portos brasileiros, na condição de escravos. Inclusive o Candomblé perdeu muito da essência dos cultos tradicionais africanos, os verdadeiros cultos de nação. Eles realmente universalizaram muitas coisas, sincretizaram santos para ludibriar o branco, porém ainda assim não concordavam com tantas coisas, o que acarretou a criação de Candomblés Jejê, Nagô, Ketu, Angola, etc…

      Orixá é um termo estritamente usado pela cultura Iorubá que acabou assimilado pelo povo brasileiro e na Umbanda adquiriu um outro sentido como um espírito iluminado. A Umbanda fundada em 1908, usou pouco do sincretismo para ludibriar, não havia essa necessidade, tanto é que as tendas TODAS (com uma exceção) possuíam nomes de Santos Católicos. Nem toda influência invasora é ruim, eu por exemplo adoro os atabaques e as comidas de santo, coisas que são claramente Nagô.

      Ninguém coloca as crenças como inferiores, ainda mais nós aqui que defendemos o respeito as múltiplas religiões – inclusive as evangélicas, e se você pesquisar no nosso blog vai encontrar até um experimento que fizemos para demonstrar que o Umbandistas/Candomblecista reclama demais de preconceito, mas é estritamente preconceituoso quando alguém os instiga a tal. Porém nosso compromisso é com fundamentos históricos, sociológicos e antropológicos.

      A questão Orixá Brasileiro ou Africano é uma figura de linguagem, mas provavelmente – devido a grande quantidade de artigos – você não deve ter tido oportunidade de verificar todos aos quais abordamos isso.

      Concluindo, obrigado por sua manifestação e por favor, faça a mais vezes, pois nosso intuito é justamente chacoalhar as bases do Status Quo.

  • Augusto

    Minha formação e meu inicio na Umbanda, se deu em um terreiro no fundo do quintal do meu pai de Santo, sem muita teoria, mas com muita seriedade e dedicação. Mesmo sem usar de teoria meu Pai de Santo sempre me ensinou e praticou a grande parte dos itens que constam nesta carta, itens estes que são unanimidade, como o trabalho caritativo, a ética o respeito, a ausência de qualquer tipo de discriminação ou preconceito, incluindo identidade de gênero, sexualidade e religião. Sempre recebemos quem quer que seja em nossa casa, porém um dia meu Pai de Santo ficou impossibilitado de continuar os trabalhos e nosso terreiro fechou literalmente e ai me vi no mundo, a única referência que tinha de Umbanda era ele e nossa casa, mas queria continuar e nisso comecei a conhecer novas casas e trabalhar em algumas, diante disso, na minha opinião, afirmo com todas as letras, SIM, é necessário e positivo existir um documento base, não digo que seja especificamente essa carta magna, pois como já bem colocado, ela foi muito restrita e embora sendo do estado de São Paulo, acho sim que precisamos de mais representantes de todo o Brasil e uma representação nacional, ou seja, em brasília, mas que existe a necessidade, isso acredito que existe sim, pois presenciei cada bizarrisse que não vale nem a pena comentar e isso me fez mudar um pouco meu ponto de vista em relação ao sacerdócio, como já comentei também em outro post, defendo muito que a Umbanda precisa ser mais “pé no chão”, porém infelizmente grande parte dos Pais de Santo mais antigos têm uma grande dificuldade de preparar filhos ou sucessores e não pela falta de conhecimento, mas sim, por medo de perder médiuns, eles não têm a noção, que quanto mais terreiros, a religião cresce mais e pensam que se formarem outras pessoas, estão aumentando sua “concorrência”, pensam que quando o médium estiver preparado, este sairá para abrir seu próprio terreiro e roubará médiuns e assistência de sua casa, isso quando não cobram valores absurdos para auxiliar alguém a fazer um assentamento, portanto, vejo que o sacerdócio seria uma alternativa a isso, não para se obter um diploma, mas sim, pq se depender de pessoas como estas, a religião se acabará conforme os mais antigos forem morrendo, portanto não acho que na carta, o sacerdócio deva ser colocado como obrigatório, mas sim citar como alternativa. Precisamos sim de alguma forma tentar falar uma língua um pouco mais universal, desde que respeitando a doutrina individual.
    Essa minha experiencia de “sair para o mundo” me elucidou uma opinião, só não existem mais umbandistas, pois temos poucos terreiros, nos últimos 2 anos, visitei mais de 30 terreiros diferentes, até ficar onde estou hoje e observei em todos que fui e até cheguei a trabalhar, que inclusive no “bizarros” sempre lotam a assistência, ficando muitas vezes gente para fora e faltam “vagas” para a entrada de novos médiuns. A demanda é muito grande e precisamos de formas de termos mais terreiros para atender essa demanda, porém a necessidade de mais terreiros, são terreiros idôneos e de confiança e para isso alguma forma de tentar moralizar as coisas e afastar os oportunistas e “pais de santo profissionais” ( este minusculo mesmo, pois não merecem respeito ). Nesse aspecto, vejo que o sacerdócio é positivo, pois se for ministrado por uma instituição idônea, além de passar valores reais, ajuda a minimizar a quantidade de oportunistas, pois já começa a separar o joio do trigo, o que vejo problema no sacerdócio é que aqueles menos favorecidos monetariamente, infelizmente podem ficar de fora, pontuarmos essa situação e solucionar essa equação em particular, não permitindo a elitização.
    Saravá fraterno e desculpe por me estender demais em meu comentário.