Intolerância religiosa e o estudo das religiões

IntoleranciaEm tempos de intolerância religiosa, eis que recebo, lamentavelmente, essa publicação, a qual não tenho como calar. Como pesquisadora e estudiosa das religiões digo que o conteúdo desta “publicidade” não é verdade. Primeiro porque nestes anos de estudo e pesquisa de campo pude constatar que muito pouco se sabe sobre as religiões, principalmente as mais novas como a Umbanda que é alvo deste anuncio. Sendo assim, defendo sempre a necessidade urgente de estudar buscando informação em uma fonte segura, idônea, e se possível imparcial, para que tenha condições de refletir e tomar suas próprias conclusões, sem traduções ou meias verdades.

Contudo, é necessário registar e esclarecer que Exu e Pomba Gira não são demônios, afinal o Diabo é uma construção Cristã e sua figura não existe no panteão nagô-ioruba. A cultura africana, da qual descende uma parte da teologia umbandista, é pouco conhecida por nós brasileiros e requer um profundo estudo. Infelizmente, devido resquícios de influência europeia e escravagista, temos a ideia errônea de que se trata de uma cultura inferior. Então, por si só justifica o estudo das religiões pois o conhecimento nos afasta da ignorância e da intolerância.

Outro ponto importante diz respeito ao “mal”, personificado na figura do demônio, que está intrínseco na condição humana e do qual, acredito, que colete nenhum poderá nos proteger. Se não queres o mal, faça o bem a si mesmo e aos outros, pois onde existe amor o mal não sobrevive. Além disso, em todas as religiões encontraremos tentativas de combater o mal e, de certa forma, o mal-estar gerado pelas outras religiões.

Nesses mais de 15 anos de pesquisas acadêmicas tenho visto muitos cientistas que são religiosos, ficam em crise com sua religião, e durante seu estudo se decepcionam, perdem a fé, desvinculando-se de qualquer instituição ou identidade. Para mim, como cientista, o estudo das religiões me libertou das amarras da ignorância e me tornou uma pessoa mais tolerante e compassiva com toda crença, sem distinção.

Alguns questionamentos são importantes: O pesquisador pode ter uma religião? Qual é o limite entre o acadêmico e o religioso? Para alguns, o estudo das religiões não está diretamente associado a prática, ou seja, não necessariamente deve-se experimentar várias religiões, como forma de conhecimento, para então, posteriormente, adotar uma. Reconheço que alguns pesquisadores, preferem se manter confortáveis, estudando sua própria confissão ao invés de se atreverem a ler sobre outras. Seria esse um sistema de autodefesa ou intolerância?

Se tenho uma religião? Claro que tenho. Tenho todas no meu coração e as exerço seja meditando no templo budista, louvando na igreja evangélica ou batendo cabeça no terreiro de umbanda. Precisamos libertar Deus da religião, pois Ele está em todos nós e onde quer que estejamos, lá O encontraremos. Quem somos nós para dizer que Ele não estará?

Enquanto religiosa, há mais de uma década, aprendi na igreja evangélica que deveria me relacionar com pessoas que temem ao mesmo Deus que eu e, portanto, deveria abandonar “idólatras, hipócritas e etc.”, mesmo que isso significasse deixar de falar com pessoas da minha família carnal pois estava ingressando em uma nova família, a família de Jesus. Isso significou afastar-me de pessoas que são sangue do meu sangue e carne da minha carne. Então pergunto: isso é religião que promove a irmandade de Cristo? Foi durante os estudos e a pesquisa acadêmica que pude conhecer melhor algumas religiões e ver as similaridades em sua essência.

Finalmente, o conflito entre o religioso (prosélito, evangelista) que deve assumir uma identidade institucional e o cientista da religião que critica severamente a todas sem a adoção de uma, deve se ajustar com o tempo e proporcionar uma contribuição positiva para o diálogo entre as religiões. Ao cientista, recomendo continuar suas pesquisas de campo, permitindo-se experimentar as sensações que cada religião pode proporcionar. Quanto ao religioso, sugiro parar de reclamar das práticas alheias e cuidar mais da sua própria vida religiosa, faça dela um exercício constante de contato com o Sagrado, o Numinoso!

Pois a religião, não passa de um emaranhado dos desejos humanos. Para Karl Marx “é o homem que faz a religião e não a religião que faz o homem”. Já o teólogo Rubem Alves afirma que a religião poderia ser uma “teia de símbolos, rede de desejos, confissão da espera, horizonte dos horizontes, a mais fantástica e pretensiosa tentativa de transubstanciar a natureza”. Então se estamos vivendo em épocas de intolerância religiosa, é porque assim estamos sendo com nós mesmos.

Formada em Comunicação e Marketing (Universidade Mackenzie) e Mestre em Ciências da Religião (UMESP) com pesquisas em religiões orientais, especificamente religiões japonesas. Atua como professora de graduação e pós-graduação há 10 anos em cursos de Teologia, Pedagogia e Prática da Espiritualidade e conta com diversos artigos publicados em revistas científicas. Editora das revistas Saberes e Ação e dos Cadernos Teológicos.
Iniciou seus estudos com os oráculos em 1991 sendo formada pela Oficina Cultural Esotérica. Atende como Terapeuta Holística e Oraculista por meio do Tarot, Baralho Cigano (Lenormand), Kipper, Runas, Quiromancia, Numerologia, Florais de Saint Germain, Terapias Energéticas, Cristais e Ervas. É facilitadora espiritual aplicando também a Terapia com os Anjos, Vidas Passadas e Magia do Fogo.
Como professora tem formado diversos alunos nos cursos de Tarot e Baralho Cigano (Lenormand), presencial em vários espaços de São Paulo e em EAD (Online) no Núcleo Sapienza com alunos em diversos países.
Responsável pelo site Terapia com Oráculos, colunista no blog Perdido em Pensamentos e comentarista no Caminhos Podcast.

Ediléia Diniz

Formada em Comunicação e Marketing (Universidade Mackenzie) e Mestre em Ciências da Religião (UMESP) com pesquisas em religiões orientais, especificamente religiões japonesas. Atua como professora de graduação e pós-graduação há 10 anos em cursos de Teologia, Pedagogia e Prática da Espiritualidade e conta com diversos artigos publicados em revistas científicas. Editora das revistas Saberes e Ação e dos Cadernos Teológicos.
Iniciou seus estudos com os oráculos em 1991 sendo formada pela Oficina Cultural Esotérica. Atende como Terapeuta Holística e Oraculista por meio do Tarot, Baralho Cigano (Lenormand), Kipper, Runas, Quiromancia, Numerologia, Florais de Saint Germain, Terapias Energéticas, Cristais e Ervas. É facilitadora espiritual aplicando também a Terapia com os Anjos, Vidas Passadas e Magia do Fogo.
Como professora tem formado diversos alunos nos cursos de Tarot e Baralho Cigano (Lenormand), presencial em vários espaços de São Paulo e em EAD (Online) no Núcleo Sapienza com alunos em diversos países.
Responsável pelo site Terapia com Oráculos, colunista no blog Perdido em Pensamentos e comentarista no Caminhos Podcast.

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  • GABRIEL

    Ediléia,

    não me leve a mal, mas essa propaganda é de um site de humor.
    Se você procurar vai achar até o manto de Jesus e o Cajado de Moisés pra vender na mesma loja.

    Att.

    Gabriel

    • Ediléia Diniz

      Olá Gabriel, recebi esta imagem de um aluno do curso de teologia cristã em que leciono. Realmente só pode ser uma brincadeira e de mal gosto este tipo de “anúncio”, no entanto, para alguns alunos destes, isso é sério. Fico feliz que estejam estudando teologia e buscando o entendimento de outras religiões. Agradeço pela informação. Abraços